segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

CHICO ANTÔNIO: O ARTISTA QUE VIVEU DUAS VEZES


O escritor e pesquisador paulista, Mário de Andrade, resolveu saber como andavam as coisas por aqui em 1928. Até então, trocava cartas com Luís da Câmara Cascudo, mas só foi conhecer o folclorista quando decidiu gastar o solado do sapato nessa terra de Poti. Soube, pela coluna dominical do Woden Madruga que foi parar na lista do Beco da Lama, que hoje, 15 de dezembro, a passagem de Mário de Andrade pelo RN completa 80 anos.

E de tudo o que o pesquisador escreveu sobre a viagem, relatada no livro “O Turista Aprendiz”, vale lembrar o encontro com o embolador de coco Chico Antônio. Dizem as línguas mais ferinas que Mário se encantou mais pela arquitetura física do artista que propriamente pelo som da embola. Mas isso é outra história.

O que me trás ao meio da rua nesta segunda-feira é a certeza cega de que os artistas da cultura popular são verdadeiros heróis num mundo amnésico. Mesmo registrado pela caneta de Mário de Andrade, Chico Antônio precisou ser descoberto duas vezes!! Depois da visita do pesquisador paulista, o coqueiro voltou ao limbo. Nem Cascudo, vejam só, demonstrou interesse em conhecer mais da história do artista.

Chico Antônio só voltou à cena 50 anos depois. Dessa vez pelas mãos do folclorista Deífilo Gurgel que, em 1979, resolveu mapear a cultura popular do litoral norte e sul do Estado. E acabou encontrando, sem querer, o famoso embolador de coco que fez Mário de Andrade sorrir.

Tive o prazer de refazer boa parte dessa viagem com Deífilo há dois anos quando ainda trabalhava no caderno VIVER, da Tribuna do Norte. O pesquisador queria rever os personagens que registrou no final dos anos 70 e saber que manifestações culturais resistiram com o tempo.

Ao chegar em Pedro Velho, município onde Deífilo e Chico Antônio se encontraram no passado, pedi ao folclorista para relembrar o momento. Eis o relato na íntegra, ainda emocionado, depois de quase 30 anos:

- O engraçado é que parece que nem Cascudo sabia dele, apesar de ter acolhido Mário de Andrade naquele tempo. Mário ficou encantado por Chico, acabou até convidando ele para se apresentar em São Paulo, mas não deu certo porque Chico desistiu. Mas no meu caso, o descobri por caso, numa das visitas que fiz a Pedro Velho. Em 1979, quando fui para a Fundação José Augusto, resolvi fazer um levantamento das danças no RN, o mesmo roteiro que estamos fazendo agora. E em Pedro Velho, depois de falar com algumas pessoas, estava me despedindo do tabelião Genar Bezerril quando ele me disse que na cidade existia um embolador de coco muito bom. Quando perguntei o nome do rapaz e ele me respondeu Chico Antônio, quase caí para trás. Fomos até o sítio onde ele estava e comecei a lhe fazer perguntas para me certificar de que era o mesmo Chico de quem Mário de Andrade havia falado. Depois que ele disse que tinha morado no sítio Bom Jardim, quis saber algumas coisas que estavam escritas no livro “O turista aprendiz”, onde Mário descreve esse encontro. Até que, por fim, lhe perguntei sobre alguma pessoa importante que esteve conversando com ele há muito tempo. E ele respondeu: “Lembro sim, doutor. Foi o seo Mário de Andrade”. Aí foi outro choque, era o Chico Antônio!

SAMBA PRA ALEMÃ BOTAR DEFEITO


Quando eu digo que o Centro Histórico absorve personagens que não existem em lugar nenhum do mundo parece, mas não é exagero. Faz um tempo que eu corro atrás de uma reportagem que fiz ainda no VIVER, da TN, sobre a última eleição da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA). O pleito ocorreu dia 1º de maio, vejam vocês, no Dia do Trabalho. E que trabalho! Mas a minha sanha em resgatar aquele texto era para relembrar um diálogo incrível que ocorreu entre um dos candidatos a presidente, Alex Gurgel, com uma senhora com pinta de alemã que se identificou como Josineide Varela, de 63 anos.

A distinta senhora vinha subindo o Beco completamente bêbada e parou onde eu entrevistava o Alex. Os dois começaram a conversar e quando vi que a prosa teria um rumo inimaginável, me afastei e comecei a anotar o embate. Infelizmente, fui fazer a reportagem sem fotógrafo (os jornais daqui tem essas coisas) e não tenho a imagem da Josineide, que ainda revelou ser artista plástica. Mas de qualquer forma, esse diálogo vale mais que qualquer imagem. Tudo no meio da rua, onde a vida realmente acontece:

Josineide Varela: Eu gosto de chutar (faz o movimento rápido como se levasse o copo à boca) por aqui. Mas onde é que a gente vota?

Alex Gurgel: O nome da senhora está na lista?

JV: Que lista, meu amigo! Venho aqui todos os dias. Só quero votar...

AG: Mas a senhora só pode votar se tiver o nome na lista. Se não tem, não vota.

JV: Como é que é? Você vai me dizer agora como eu devo fazer, é? Minha mãe morou por aqui a vida toda! Todo mundo me conhece aqui. Vou votar sim.

AG: Minha senhora, entenda: é uma regra. Imagine se todo mundo que quisesse votar viesse para cá? Não ia ter condições. Se o prefeito de Natal quisesse votar hoje ele não podia porque o nome dele não está na lista. Me diga porque a senhora votaria?

JV: O que é isso, meu amigo!? O prefeito é uma autoridade! Você não pode fazer isso. Vou votar e ainda trouxe dois amigos que vieram da Alemanha para votar também.

AG: Minha senhora, não pode! A senhora conhece pelo menos os candidatos que estão participando da eleição?

JV: E eu lá quero saber de candidato, meu amigo! Vou votar no melhor. Me diga uma coisa: vocês tem sede?

AG: Não.

JV: Meu amigo, vocês não têm nem sede e ainda querem me impedir de votar? Como é que pode?

AG: Mas se a senhora não sabe nem quem são os candidatos...

JV: E você lá conhece algum candidato!

AG: EU SOU CANDIDATO! Ta vendo? Como é que a senhora quer participar se não sabe de nada?

JV: Olha aqui, quero uma cerveja. Não dá para conversar com você sem tomar cerveja.

AG: Tem vários bares aqui...(ele aponta para a região)

JV: (depois de entrar e sair do bar em frente onde a discussão se dava, ela volta provocando) Aqui não tem cerveja. Quero votar.

AG: Eu já lhe disse que a senhora não vai votar.

JV: Que absurdo! Você sabe porque isso está acontecendo?

AG: Porque a senhora não tem o nome na lista...

JV: Não! Porque não tem organização! Isso é coisa de brasileiro! O Congresso Nacional só tem safado. Isso o que está acontecendo aqui é uma sacanagem...

AG: A senhora está misturando as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com outra. Aqui é a eleição da Samba.

JV: De quem? Está vendo? Até o nome é uma porcaria (diz o nome Samba com desdém e dança na frente do repórter e do candidato numa cena que lembrava as chanchadas da década de 70).

AG: Mas Samba é Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Olhe, a senhora não sabe nem o que significa o nome da entidade. Quanto mais votar...

JV: Olhe aqui, meu amigo: eu vou me candidatar à vereadora nas próximas eleições e ainda vou ter mais votos que você! Agora eu vou tomar uma cerveja e depois vou votar, você não vai me impedir!

Depois de se despedir, ao seu estilo, Josineide foi até à urna e falou alguma coisa para o mesário, que balançou a cabeça negativamente. Em seguida, resmungou, olhou para o lado e entrou no bar do Chico, atrás da famigerada cerveja.

sábado, 13 de dezembro de 2008

A POLÊMICA DO LIMÃO

A relação de Lula Belmont e Ricardo, a dupla que comanda o Bardallo´s, com a turma que freqüenta o buteco é digna de registro. Apesar de ser tratado muitíssimo bem todas as vezes que compareço ao estabelecimento da Rua Gonçalves Lêdo, há sempre alguém nas imediações do Beco da Lama para reclamar de alguma coisa. Na lista, a grosseria ganha disparado. A verdade é que as respostas atravessadas de Lula e Ricardo para os fregueses já fazem parte da história do buteco. É como se viesse no cardápio. E todo mundo sabe disso.

O bom é que no meio dessas arengas nascem histórias geniais, como a que me foi narrada pelo Fábio Athaíde, agora avô, numa dessas tardes de cerveja gelada no bar de Nazaré. Fábio conta que decidiu pegar o rumo do Bardallo´s na boca da noite de um dia qualquer. Foi direto ao balcão. Já notando o humor enviezado de Lula, também cerrou a cara antes de pedir uma dose de cachaça. Copo na mesa, aquele clima constrangedor no ar, pediu uma rodela de limão para ajudar a descida quando ouviu o sermão:

- Limão!? Você quer caipirinha, é? Se for caipirinha é mais caro, viu?

Como todo freguês que leva uma dessa, Fábio disse que nunca mais colocaria os pés no buteco. A promessa, claro, não foi cumprida. É assim que a vida segue no Bardallo´s. Até Lula tocar o sino e botar todo mundo para correr.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

MEU GARÇOM



No dia em que meu copo secar de vez, espero ser recebido por um garçom. No céu, no inferno ou em qualquer outro buraco para onde meus pecados me levarem. Nada de São Pedro ou um desses anjinhos são-paulinos tradicionais. Tem que ser um garçom de respeito. Vestido de branco, mas sem aquela miserável gravatinha borboleta. Tem que ser garçom de botequim. Caneta bic na orelha, gola amarrotada e um pique de fazer inveja a qualquer corredor da São Silvestre. Não precisa nem ser homem. Detalhe infame. Garçom não tem sexo. E discutir o sexo dos garçons deve ser aquela velha lenga-lenga de sempre. Há outro detalhe fundamental: além do garçom, aquele lance de harpas e trombetas também está fora de cogitação. Tem que ter samba. Cartola ou Noel, de preferência.

O garçom que pintar na área também deve me levar para a mesa certa. Sendo um garçom de respeito, como sei que será, saberá o que fazer. Sendo a primeira vez no buteco, uma mesa distante, com uma única cadeira, encostada na parede e de frente para o ventilador é suficiente. Nem tão perto, nem tão longe do banheiro. Coisa simples. Até porque a última coisa que quero é ser reconhecido por algum sujeito que insista em sentar à mesa para me dar as boas vindas.

Meu garçom deve vir com a presteza e a memória do Valdenir, que me conheceu ainda pelas bandas da Con Xin China e se apresentou já no Cais 43, dois ou três anos mais tarde. Um garçom que me dê a liberdade de reclamar da conta que veio alta demais e, da próxima vez que eu voltar, tenha a delicadeza - que só os grandes seres humanos têm - de reconhecer o erro e dizer que, realmente, eu e Ana tomamos 38 e não 39 chopes naquela tarde única.

Mas o meu garçom também virá – e eu sei que virá – com a pureza da Dinda, garçonete do buteco da Tia Deja, no Mercado de Petrópolis, que depois de uma tarde de samba dessas que lavam a alma, ainda pagou do próprio bolso três saideiras pelo prato de paçoca que veio a mais na conta que a proprietária do estabelecimento fez questão de cobrar.

Imprescindível também é que meu garçom se chame Naldo. Disso eu não abro mão. Naldo como o garçom que conheci esse fim de semana na praia de Pipa. Uma figura que desafia a natureza quando atravessa um pedaço do mar com água no peito para levar e trazer, do bar até a areia, os pedidos dos turistas.

Meu garçom, mesmo cansado e assado pelo contato da água salgada com a virilha, deve resistir como o Naldo de Pipa resiste até chegar em casa, momento em que senta no sofá e, como o ser humano único que é, olha para mulher e pede uma cerveja gelada antes de apagar na poltrona ignorando, inclusive, o boa noite do Willian Bonner.

No dia em que meu copo secar de vez, quero ser recebido por um desses garçons de verdade. Desses que a gente encontra no meio da rua. E quando o portão de ferro baixar de vez e meu garçom já não tiver mais nenhum cliente para atender, eu possa dizer feliz da vida:

- Agora é por minha conta.


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

UMA NOITE DE CÃO NO BAR DO RICARDO



Depois de uma reunião de trabalho EXTREMAMENTE estressante nosso fim de noite não merecia outro destino senão o bar do Ricardo, ali quase na esquina da Ulisses Caldas com a finada avenida Junqueira Ayres (hoje Câmara Cascudo). E digo isso porque o bar do Ricardo, desde que chegamos de mala e cuia ao Centro Histórico, virou nossa segunda casa. Por uma razão muito simples: o carinho com que Ricardo, Cris e Léo - a família que comanda o boteco - tem dispensado a mim e a Ana desde que comemoramos a primeira das inesquecíveis vitórias do MENGÃO, na arrancada da Zona de Rebaixamento à Libertadores, em 2007. Mas isso é outra história.

O assunto aqui é outro. Falo do clima e da relação que fazem do bar do Ricardo um autêntico botequim no Centro Histórico da cidade. Naquela noite de segunda-feira, quando nada parecia capaz de desanuviar o ambiente pesado que ficou lá em casa, a intimidade que nasceu de nossa relação com o dono do bar - e que só existem em botecos de verdade - nos devolveu parte da alegria roubada horas antes da famigerada reunião.

Com a conta paga e devidamente municiados de mais três cervejas, que derrubamos assim que chegamos em casa, Ana me contou essa história deliciosa que ocorreu quando fui ao banheiro e só acontece em locais mágicos como os botequins, onde as pessoas se despem do personagem que vestem na rotina diária e voltam a ser quem realmente são: gente.

- Pensei em pedir três cervejas pro Ricardo para a gente tomar em casa, mas resolvi pedir quatro. Aí ele botou as três na sacola e, na quarta, quando viu que estava cinza de tão gelada, peguntou se não dava para deixar para ele tomar mais tarde, enquanto terminava de limpar o bar. Ele disse que tava seco para tomar uma. Aí deixei.

Depois de rir da história, fiquei imaginando em que outra situação o dono de um boteco pede ao freguês para não levar a cerveja mais gelada do bar para que ele mesmo possa consumir. Aí fui entender a filosofia. Ali naquele momento, Ricardo não deixou de ganhar os R$ 2,50 de sempre pela Skol geladíssima. A lógica é outra: matou o desejo que lhe consumia a garganta e, de quebra, estreitou ainda mais uma amizade sincera que até numa noite de cão é incapaz de passar despercebida.