terça-feira, 13 de julho de 2010

PERGUNTAS DE CRIANÇAS

Por Rubem Alves, hoje na Folha de São Paulo

CABEÇA DE CRIANÇA não é gaveta onde se guardam informações. É canteiro onde nascem perguntas. E nunca se sabe quais foram as sementes que um anjo misterioso plantou ali. Mas se sabe pelos brotos que são perguntas nascidas de olhos espantados, que foram pegos de surpresa, sem saber.

Alberto Caeiro disse bem: "Sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras. Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo."

Pois a pergunta que a Andréia, afilhada minha de oito anos, me fez nunca ninguém havia feito. Sei disso porque nunca me foi dada a resposta.

"-Na história da Cinderela, quando tocassem as 12 badaladas, não era para quebrar o feitiço e tudo voltar a ser o que era antes?"

Concordei e confirmei.

-"Isso. O vestido de baile virou vestido de cozinheira e a carruagem dourada virou abóbora madura."

"-Então", disse ela preparando o xeque-mate, "por que é que o sapatinho de cristal continuou a ser sapatinho de cristal, encantado, e não desencantou virando tamanco?"

Fiquei mudo.

Ela percebeu um erro na história: o sapatinho não desencantou. E o que foi que fez com que ela percebesse o erro? Seus olhos. Os meus olhos, que foram enganados, só repetiram a velha história já sabida. Viram aquilo que a memória me contava.

É isso que a memória faz: repetir o já sabido. Mas ela, se fosse recontar a história, teria de inventar outra que explicasse o sapatinho de cristal ou que o eliminasse.

O canteiro da memória é lugar onde só nascem pontos de exclamação. O canteiro da invenção é o lugar onde nascem os de interrogação. Como disse E. E. Cummings: "Sempre uma resposta bonita que pergunta uma pergunta mais bonita ainda."
Recebi da professora Edith Chacon Theodoro uma carta digna de uma educadora e, anexada a ela, uma lista de perguntas que seus alunos haviam feito, espontaneamente.

Impressionou-me, em primeiro lugar, o fato de ela ter dado tanta atenção às perguntas dos seus alunos. Note que elas foram feitas "espontaneamente", eram pontos de interrogação diferentes naqueles canteiros, totalmente diversas das respostas que estavam "presas" nas "grades curriculares". Talvez por elas não serem canteiros férteis para as interrogações que nascem nos alunos... Quem sabe cemitérios.

"Por que o mundo gira em torno dele e do sol? Por que a vida é justa com poucos e tão injusta com muitos? Por que o céu é azul? Quem inventou o português? Como os homens e as mulheres chegaram a descobrir as letras e as sílabas? Como a explosão do Big Bang foi originada? Será que existe inferno? Como pode ter alguém que não goste de planta?"

Continuam: "Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Um cego sabe o que é uma cor? Se na arca de Noé havia muitos animais selvagens, por que um não comeu o outro? Para onde vou depois de morrer? Por que adoro instrumentos musicais se ninguém na minha família toca nada? Por que sou nervoso? Por que há vento? Por que as pessoas boas morrem mais cedo? Por que a chuva cai em gotas e não tudo de uma vez?"

Essas perguntas parecem tão ingênuas que nos fazem rir. Mas elas são revelações das funduras das almas e das inteligências das crianças e dos adolescentes. Revelam não só a sua curiosidade sobre o universo como também sua dimensão ética, a preocupação com a justiça, com a beleza, com o mundo dos valores religiosos, com a mitologia...
Da próxima vez vamos brincar com essas suas perguntas.

O FIM

Sabe fim de novela da Globo? Pois tire o tradicional final feliz. “Ah, mas o Dunga se deu mal e o Brasil não levantou o caneco como vocês previram antes do início da Copa!” dirão os críticos do escrete convocado pelo ‘professor’ Carlos Magno Araújo. Sim, esse cara aí do lado com a mão no queixo é o nosso Dunga.

O que significa que se na sua análise houver um culpado entre nós, pobres boleiros mortais, paus e pedras no técnico, por favor! Ou então eleja o Felipe Melo que mais distribuiu carrinhos e pancadas por estas mal traçadas. Afinal, somos todos brasileiros e estamos na mesma jangada sem rumo na imensidão de gastos da Copa que virá em 2014.

Esqueçamos por enquanto, e só por enquanto, o futuro. Imaginemos, agora, que num passado nem tão distante assim, Deus, para usar uma figura onipresente na seleção evangélica de Dunga abençoada por Jorginho, era mesmo brasileiro. E só por conta disso, antigamente Michel Bastos teria nascido na Espanha e Iniesta chorado, pela primeira vez na vida, num hospital público desse lado de cá do Atlântico.

O nome disso, admito, é inveja. Mas daquelas que não fazem mal ao futebol como fez a bolinha quadrada do time de Ricardo Teixeira. Um sujeito que tem a cara de pau de cobrar renovação na Seleção ocupando o mesmo cargo há 21 anos.

Isso é o que nos espera daqui a quatro anos. O resto é história que a gente conta em 2014. Até lá, muita obra sem licitação vai correr por debaixo da próxima Copa. Olho neles porque o dinheiro é nosso.

Hasta la vista!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

'O AMOR SÓ É BOM SE DOER'

Ah, a saudade. Se a terça-feira desta semana foi feita para relembrar Cazuza, que cantou pra subir há 20 anos, hoje, nesta sexta triste, é dia de tomar aquele gole de uísque pra ficar um pouquinho mais próximo de Vinícius, o poetinha que foi tomar seus porres noutro canto há 30 anos. Desse balcão de madeira virtual, prostrado evidentemente no meio da rua, ergo o copo invisível lembrando o poeta, para quem o melhor amigo do homem sempre foi o uísque, que no dizer dele nada mais é do que o cachorro engarrafado.

De 'Canto de Ossanha', a frase com que disseco esses dias tão doloridos:

"Pergunte ao seu orixá: o amor só é bom se doer"
Vinícius de Moraes

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O FATOR POLVO

Nem eu, que faturei 100 pilas contra a Coréia do Norte e a Costa do Marfim nem o repórter Hugo França, que levou quase 150 caraminguás no muxoxo empate com Portugal. O rei do bolão mundial é o infeliz do polvo alemão, o molusco que segue com 100% de aproveitamento na Copa.

O sacripanta acertou o vencedor de todos os jogos da Alemanha. Vá lá que o grau de dificuldade de quem crava o placar do jogo é maior. Mas não vamos jogar água no chope alemão. Até porque se tem uma coisa que ninguém pode reclamar é a crença alemã no primeiro doido que aparece.

O alemão tem aquela fama de certinho, disciplinado, frio, mas no fundo é tão maluco que o mais pinel do hospital João Machado. Sejamos sinceros: quem, em sã consciência, acreditaria num sujeito recém-chegado de outro país com a idéia maluca na cabeça de exterminar judeus do planeta? Só mesmo a turma do chucrutes que põe fé no poder supremo e premonitório de um bicho que sabe quem vai ganhar um jogo de futebol. E parece que, dessa vez, contaminou o mundo.

Ontem, assim que a Espanha sacramentou a vaga na final, falei com o Alemão. Funcionário da loja de macumba que fica na esquina do Beco da Lama, ganhou o apelido depois que acreditou quando Felipe Melo disse, antes da Copa, que tinha mudado. Alemão estava preocupado. E tinha uma bomba:

- Hômi, o DEM e o PSDB vão à Justiça proibir a participação do polvo nas eleições desse ano.

Por quê?, perguntei.

- É amigo de Lula...

terça-feira, 6 de julho de 2010

PROGRAMA DE ÍNDIO

Alto lá! O título não faz referência alguma ao vice de Serra. Aqui o papo é sério, não é a esculhambação do PSDB. Falo do papudinho mais sem-futuro (dizem as más línguas que é tão sem futuro que está por meia cirrose) da república anárquica do Beco da Lama.

Índio, assim sem sobrenome, tem a mania de hibernar após um porre. Chega a sumir durante uma semana. Ninguém sabe se passando o tempo dormindo o sono dos lisos ou com ressaca moral mesmo. Ontem à tarde, próximo ao bar do Chico, encontrei Índio cambaleante, procurando um rumo.

Remela na cara, cara de sono. Com uma guimba de cigarro apagada no canto da boca, pediu um isqueiro. Disse que não fumava e perguntei de onde vinha:

- Hômi, tomei umas cachaça no primeiro tempo do jogo contra a Holanda no telão da prefeitura que nem vi o resto da partida. Acordei inda agora...

Índio estava em transe. Achava, pelo que rolou na primeira etapa do jogo de sexta-feira, que nem o Mick Jagger era capaz de fazer o Brasil perder aquela barbada. Imaginando mais um feriado nesta terça-feira, perguntou meu palpite para o jogo:

- Rapaz, vai ser duro. Mas sou Uruguai desde pequeno.

Índio me olhou como quem não acreditava. Estrebuchou um palavrão, me chamou de antipatriota e todas aquelas merdas que aprendeu com o Dunga e foi andando. Quando ia virar a esquina, ainda gritou:

- Hômi, pare de beber... assim você endoida. Uruguai é a porra! É Brasil na cabeça. E com um gol de carrinho do Felipe Melo que é pra tu ficar mais puto ainda...