quarta-feira, 8 de julho de 2009

CONSELHO

Estive hoje pela manhã em Ponta Negra acompanhando a pauta do meu colega Bruno Vasconcelos, repórter de esportes do DN. Fomos os dois no mesmo carro, ao lado da fotógrafa Joana Lima e do motorista Alexandre. Como meu destino era mais longe e Bruno tinha hora marcada, pegamos o rumo de Ponta Negra. Lá ainda esperamos alguns minutos até a chegado do Thoni, lateral-direito do América que, no último final de semana, fez um golaço aos 40 minutos do segundo tempo contra o Campinense, na Paraíba. Bruno já havia feito a matéria por telefone e, portanto, faltavam as imagens do sujeito. A pedido de Joana, Thoni posou tomando uma água de coco sentado numa das jangadas atracadas na areia e caminhando pelo calçadão da orla. Conversa vai, fotografia vem, entrei na conversa falando de futebol. Quando botei o Flamengo na roda, lembrando a infelicidade do babaca do Ronaldo Nazário, que duvidou essa semana do tamanho da maior torcida do mundo, notei que o atleta do América mudou o semblante. Quase imperceptível, mas achei estranho.

Eis, agora, o verdadeiro motivo desse pequeno texto. Esperei a turma silenciar e perguntei ao Thoni se ele tinha um time do coração, aquele clube que desde criança a gente aprende a amar e, ganhe ou perca, o amor não muda. Depois de mais uma golada na água de coco morna, o rapaz confessou, sem graça e com a cabeça baixa:

Eu ERA Vasco.

Ouviu-se ali, durante bons segundos, uma gargalhada incontida de minha parte e da parte do Bruno, outro rubro-negro. Constrangido, Thoni disse que o jogo entre América e Vasco seria disputado no dia do aniversário do pai dele, também vascaíno, agora no mês de agosto. Para não perder a piada e animar o cabisbaixo lateral americano, dei um um último conselho:

Seja profissional, Thoni. E aproveita para marcar mais dois.

Ele riu e, claro, eu também.

terça-feira, 7 de julho de 2009

DIRETO DA REDAÇÃO

Começo hoje, aqui neste espaço, a primeira série do Meio da Rua. Todas as terças-feiras, publicarei algumas pérolas testemunhadas por mim ou que tiveram esse jornalista que vos escreve como protagonista. Geralmente são histórias engraçadas que a gente costuma relembrar na conversa com os amigos, claro, em mesa de bar. Um detalhe importante: como não fui autorizado por ninguém a publicar mico dos outros, devo omitir os nomes dos verdadeiros autores de algumas acontecências das redações do Diário de Natal e da Tribuna do Norte, os dois jornais da cidade em que trabalhei. Hoje, de volta ao DN depois de três anos, sigo anotando as proezas que vejo. Tudo assim, Direto da Redação.

O DIA EM QUE A ENTREVISTA COM DOM HELDER CÂMARA CAIU NO BURACO

Conhecido pela atuação humanitária em favor dos pobres e, principalmente, dos perseguidos políticos na época da ditadura militar, o arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara morreu em 1999. Quando iniciei no jornalismo, dia 5 de agosto de 2005, conhecia pouco da biografia do santo padre pernambucano, mas o suficiente para saber que ele não estava mais entre nós. O problema é que, numa redação de jornal, não existe verdade absoluta. Ainda mais quando se está começando. E principalmente quando é o seu primeiro dia como estagiário num jornal da chamada grande imprensa potiguar, como o Diário de Natal.
Logo, qual não foi minha surpresa quando o chefe de reportagem do DN, Marcos Ramos, hoje editor do caderno Interior, do Jornal de Hoje, iniciou o seguinte diálogo:

- Você é católico?, perguntou-me o chefe.
- Sou, mas não pratico.
- Ah, pelo menos você não é crente. Acho que você é o repórter ideal. - Para quê?, retruquei já imaginando que faria a matéria do ano no primeiro dia de trabalho.
- Amanhã você vai entrevistar Dom Helder Câmara.

Aquilo, para mim, caiu como uma bomba. Mas fui em frente sem entender.

- Como?, eu questionei num misto de certeza e espanto.
- Dom Helder Câmara, o arcebispo, não conhece?
- Conheço.

- Então depois procure a biografia dele na internet para você saber quem é. Temos que checar que hora ele chega.

A essa altura eu já duvidava de tudo o que eu tinha aprendido na faculdade de jornalismo e, principalmente, já dava o velho quase como ressuscitado.

Tive uma idéia. Respirei fundo e imaginei, óbvio, que se tratava de alguma pegadinha do chefe com o estagiário, daquelas que a gente conhece só das histórias contadas por jornalistas mais velhos. Estava na cara: o chefe de reportagem queria me sacanear. Enquanto eu estivesse lendo a biografia resumida de Dom Helder Câmara na internet ele estaria mijado de tanto rir do trote em cima do otário aqui.

(Aqui, uma pausa. Quando entrei no jornal, a redação do Diário era escura, os móveis antigos e os computadores, provavelmente, eram os primeiros da era pós-maquina de escrever).

Pois bem. Vendo Marcos Ramos de um lado para o outro da redação, resolvi abordá-lo novamente. Fingi que esqueci o nome do entrevistado e retomei diálogo:

- Marcos, qual é o nome do arcebispo que eu vou entrevistar, mesmo?
- Dom Helder Câmara., ele repetiu para o meu desespero.

Continuei suando frio:

- Você tem certeza que é Dom Helder Câmara?

A essa altura do campeonato eu já estava com medo de dizer que o velho tinha morrido e ouvir que eu não sabia de nada e, por isso, não serviria para trabalhar em redação. Até que, sabe-se lá como e por onde, entrou um pouco de luz na redação do DN e a polêmica acabou quando Marcos Ramos pegou a pauta da minha mão.

- Peraí. Helder Câmara não! Você vai entrevistar o Dom Eugênio Sales, arcebisto de Natal, que está vindo do Rio de Janeiro. Dom Helder Câmara já morreu, cara!

Ele disse tudo isso rindo como se eu não soubesse do acontecido. Me deu dois tapinhas nos ombros antes de dizer que meu expediente já havia terminado.

Respirei aliviado e fui para casa vasculhar a vida de Dom Eugênio Sales na internet. Voltei no dia seguinte afiado e empolgado com a entrevista. Minha alegria acabou quando recebi a pauta: a entrevista foi repassada para outro repórter. Para mim, sobrou uma grande notícia: continuar, por telefone, a matéria de uma colega que participou, no dia anterior, das comemorações pelo aniversário de 1 ano de um buraco aberto próximo a praça do Relógio, no Alecrim.

Para quem ia entrevistar um defunto, cair num buraco foi um grande começo.

UMA ESTRELA SEM ALARDE




Vendo essa arrumação toda em volta do funeral de Michael Jackson, me lembrei da segunda vez em que estive em Ceará-mirim. Fui a trabalho, mas a visita rendeu algumas boas histórias. Antes do início da passeata que fui cobrir no dia, por exemplo, passou uma Kombi enferrujada na avenida principal da cidade anunciando, de um alto-falante acoplado ao carro, a morte e o local do sepultamento do finado Grandão da Cosern. Não tenho a menor idéia de quem foi o tal sujeito nem tive tempo de colher informações a respeito. Chamou-me atenção, no entanto, o burburinho dos moradores da cidade. A impressão era de que todos ali conheciam, ao menos de nome, Manoel Leopoldino, o popular Grandão da Cosern. Vizinhas de janela cochichavam, dois frentistas do posto de gasolina da cidade se entreolhavam como se não acreditassem na notícia e até uma manifestante do protesto que estava para acontecer passou a falar sozinha como se encomendasse a alma do finado.

Apesar de não ter acompanhado o cortejo que se sucedeu na parte da tarde e mexeu com Ceará-mirim, tenho certeza que o caixão não era folheado a ouro, os ingressos do velório não foram distribuídos pela internet e depois vendidos por R$ 20 mil dólares, e muito menos recebeu qualquer celebridade num show de cores, música e brilho. Tenho para mim, que se Michael Jackson pudesse ter voltado atrás, preferiria ter vivido, assim, como o Grandão da Cosern: longe da mídia, mas mesmo assim conhecido por meio mundo de gente. Uma estrela sem alarde. Nem a pompa de um pop star.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A DEDICATÓRIA DO CORNO

O bar de Nazaré, na rua Coronel Cascudo, é um palco de encontros e desencontros indesperados. Como o que aconteceu, no início do mês, minutos antes da segunda reunião da diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjascências (SAMBA). Antes dos fatos, no entanto, algumas explicações são mais que necessárias.

A primeira vez que tive contato com Fábio di Ojuara foi justamente no estabelecimento da mãe do Paulinho. Passei a vista na parede do buteco, repleto de telas dos artistas plásticos que habitam a Cidade Alta, e parei num quadro (tenho dúvidas se não era um escultura) em que havia um bojo e uma fundamental declaração: "Toda merda agora é arte". Como a obra, nos dois sentidos, me impressionou, guardei o nome do sujeito. Mais tarde, numa reportagem exibida no jornal local da Cabugi, ouvi falar, pela segunda vez, de Ojuara. A diferença é que, agora, o rapaz aparecia representando a Associação de Cornos de Ceará-mirim. Impressionado com o talento do artista para surpreender o público, o nome seguiu martelando minha a cabeça durante um bom tempo.

Ouvindo a conversa de um e de outro pelo Beco, descobri que Ojuara era um corno conhecido na região. Só não sabia, ainda, que o sujeito se gabava da condição que já matou muita gente mundo afora. Portanto, encontrar Fábio Ojuara, na boca da noite do bar de Nazaré, tomando uma Brahma gelada com Abimael e Fábio Athayde, mesmo que por poucos minutos, foi um senhor prenúncio.

Um ser humano simples, como não imaginei que fosse, o corno mais famoso do Beco da Lama. E sedento por divulgar a própria experiência no ramo, digamos, dos chifres. Demonstrando uma sensibilidade só comum aos homens que apresentam dificuldades em atravessar uma porta qualquer, relatou, emocionado, a história da dedicatória que ofereceu à Cristina: alma sebosa que lhe traíra por quase uma década. Segundo Ojuara, antes de descobrir a trairagem, Cristina lhe disse, ao pé do ouvido, em plena escadaria da igreja de Ceará-mirim, que nunca trairia sua confiança, quanto mais o resto das coisas. Após uma confissão quase católica como essa,pensou o sujeito, não havia motivos para duvidar.

O tempo voou e os galhos na cabeça de Ojuara começaram, como o tempo, a pesar demais também. Acabou lançando um livro, "Sabendo usar... chifre não é problema", onde conta algumas histórias, piadas, causos e provérbios. Na dedicatória, a homenagem singela à incurável dor de corno:

- À você, que um dia, jurou nunca me trair.

Como a conversa rendeu ainda boas risadas, em breve contarei a história do "Homem que matou a Geladeira", uma das experiência do mesmo Ojuara que virou até folheto de cordel nos versos do poeta Abaeté.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ANTIGUIDADE É POSTO NO REINO DOS BOTEQUINS




Se ainda há alguma alma viva capaz de confiar num jornalista tão irresponsável por ignorar durante cinco semanas o meio da rua mais humano do espaço virtual, aviso que estou voltando aos poucos. A trabalheira está grande, mas não é desculpa para esse sumiço sem satisfação. Semana passada, fiz uma reportagem bacana sobre o dono de buteco mais antigo do Beco da Lama. Chico é um desses personagens que merecem respeito e destaque. A matéria foi publicada domingo no Diário de Natal. Na página, veio com outro título "Autoridade do Beco da Lama". No Blog, vai o original "Antiguidade é posto no Reino dos Botequins". O fotógrafo do DN, D´Luca, cedeu gentilmente algumas imagens daquela manhã que parecia comum, mas findou num papo de cliente para dono de botequim.


Dono de botequim que se preze tem que negar o fiado, evitar beber na frente da freguesia e, principalmente, ser chato. Daqueles bem abusados mesmo. É assim, convicto, que o ex-soldado do Exército Francisco de Assis leva o barco devagar como o proprietário mais antigo de um boteco no Beco da Lama, região tradicionalmente boêmia do Centro Histórico de Natal. O expediente no bar do Chico segue, religiosamente, o calendário de segunda à sábado. Feriado também é dia de descanso para ele e dona Tica, cozinheira da mão boa que "aguenta" Chico há 26 anos. "A gente briga, mas a gente se ama", diz, rindo, a companheira de trabalho.

Mais antigo proprietário do local, seu Chico encara mais um dia de trabalho no centro histórico de Natal, que continua atraindo boêmios de diferentes classes sociais e regiões da cidade. O velho portão de ferro do boteco levanta por volta das 7h e só vai dormir quando o ponteiro do relógio bate na casa das 20h. Mas nem sempre foi assim. Antigamente, até o início dos anos 90, a madrugada era quem ditava o ritmo. Tempo em que o Beco da Lama tinha "seu" Nasi e dona Odete como expoentes na direção dos botequins da área. Hoje, sem o mesmo glamour, é Chico quem guarda o posto de mais antigo dono de bar da região. "A gente ia até uma da madrugada. ´Seu` Nasi fechava sempre às 21h. Depois disso, os clientes vinham para cá", lembra.



Aos 60 anos de idade, Chico dedicou mais da metade da vida ao ofício de servir, receber, ouvir e reclamar dos clientes. "É um sonho realizado. Sempre tive vontade de abrir um bar. Fiquei no Exército durante seis anos e, quando saí, não tinha emprego. Em três meses, apareceu o bar. Dia 12 de novembro de 1976", conta sentado atrás do balcão.

Chico fala da vida com conhecimento de causa. Há 33 anos no comando do estabelecimento, é um cara realizado, mas admite uma saudade incurável do tempo em que o Centro Histórico de Natal era mais valorizado e a correria diária dos trabalhadores desembocava sempre no Beco da Lama. "Na época do Bandern e do cartório tinha muitos clientes. O problema também é que a cidade cresceu para a Zona Sul e a maioria do pessoal que trabalha no Centro, hoje mora em bairros afastados, como Potilândia, Candelária, Neópolis, Nova Parnamirim. A cidade parou aqui", diz.

Nesse período de mais de três décadas, o Beco da Lama também mudou. E, segundo Chico, para pior. Se antes os fundos das lojas da outra margem da rua, localizadas de frente para os bares, eram abertos, o que facilitava o acesso dos clientes, hoje o comércio virou, literalmente, as costas para o Beco. O dono do bar do Chico é do tempo em que o calçamento da rua era de paralelepípedo. A mudança para o cimentado é a única transformação positiva apontada por ele na área em mais de 30 anos no estabelecimento. "Desde que eu vim para cá ouço falar na revitalização do Beco da Lama e ninguém faz nada. Vejo as pessoas usarem muito o nome do Beco, mas nem as festas estão sendo feitas mais aqui. Agora é tudo nas praças", reclama.

"CHATO POR OPÇÃO"



Chico acredita que se dono de bar não for chato, a clientela "monta". Por isso, não faz questão de ser amável, embora tenha ficado bem à vontade na entrevista. "Tem gente que cospe no salão. Aí não dá. Eu tenho que colocar o limite", frisa. O boteco é pequeno, mas acolhedor. Ao todo, três prateleiras, dois ventiladores, uma televisão e um relógio de parede ornamentam o cenário. Atrás do proprietário fica o aparelho de som. A música que toca vai ao gosto do freguês, isso desde que não haja polêmica sobre a qualidade do disco. Em 33 anos, o bar já passou por três pequenas reformas. A mesinha de fórmica e ferro na cozinha está no mesmo lugar desde o primeiro dia de trabalho. A geladeira, cambaleante e enferrujada, tem 25 anos de botequim. "Essa eu trouxe da casa da minha irmã. Já mandei consertar o motor e repintar algumas vezes", diz, antes de confirmar as especialidades da casa: frango ao molho, guizado e porco.

Indagado sobre o polêmico fiado que baixa sempre nos botecos, Chico lembra que quase foi à falência por conta de alguns fregueses. "Trinquei, mas não quebrei. Fiado é complicado. Uma vez um cara pediu para pendurar as cervejas que ele tomou e foi embora. Eu me levantei, saí para fumar um cigarro e descobri que o mesmo sujeito estava bebendo lá na frente e pagando com dinheiro. Não pode! Antigamente o salário só saía no final do mês, hoje o dinheiro circula mais facilmente. Meus clientes mesmo pagam sempre com dinheiro na hora", afirma.

Apreciador de cerveja gelada, Chico defende que para manter a ordem no boteco, o dono não pode se misturar aos clientes. Mas não discrimina ninguém. Observador e ouvidor do cotidiano que passa todos os dias pelo bar, diz que já viu de tudo e só não consegue entender um único tipo de conversa recorrente nas mesas. "O cara sai do trabalho cheio de problema, vai ao bar, pede uma cerveja e começa a discutir todos os problemas que teve no trabalho. Acho isso ridículo, não dá para entender", encerra.