terça-feira, 21 de outubro de 2008

ACHOXIACHÓN






Um fim de tarde nas adjacências do Beco da Lama faz um bem danado. Até para conhecer, de fato, como funcionam as coisas por aqui. Após um compromisso furado e uma tristeza no peito com a cena do portão de ferro do bar de Nazaré arriado, em plena segunda-feira, resolvi seguir uma trilha à Bangu pelas ruas e travessas da Cidade Alta, reduto da outrora Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA).

Subi a Gonçalves Lêdo olhando o que resta dos sapateiros, ourives e chaveiros, dobrei na João Pessoa para encarar os engraxates com suas casamatas instaladas no calçadão, segui até a igreja do Galo que canta afinado só para as beatas e desci sem rumo. Do lado direito, já na Santo Antônio, o letreiro: Associação dos Artistas Plásticos Potiguares (AAPP). Instalada num casarão de fachada antiga, decidi bater para conhecer o local que o próprio presidente da casa, um peruano, me convidou para ver nos tempos idos em que ralava na editoria de cultura da Tribuna do Norte.

Lembro que, na época, o entrevistei por telefone, quando da inauguração da tal Associação. Depois, no bar de Nazaré. Como não sabia quem era, reconheci pelo sotaque quando, indagado por alguém que não me lembro o nome, disse o que fazia no Brasil sem, é claro, esquecer as origens:

- Soy presidente da Achoxiachón dos Artistas Plásticos Potiguares.

Da cena, nunca esqueci a cara vermelha do jornalista Léo Sodré, que quando parou de rir prometeu uma crônica para homenagear o presidente da tal entidade.

Devia ter deixado a visita para outro dia quando apertei o dedo na campanhia e o chamado soou três vezes. Se fosse na madeira, isolava e pegava o Beco. Mas fui em frente. No fundo, deu para ver um rapaz pintando uma tela até o peruano aparecer no corredor tomado de quadros e vir até a porta. Sem menção alguma de que fosse abrir, perguntou, educadamente, em que poderia me servir. Fui direto:

- Vim conhecer a associação.

O que ouvi, a partir dali, parecia em outro idioma.

- Mas quem é você?
- Eu!? Por quê? Só vim conhecer...
- Olha, a nossa galeria não é aberta assim. Só abrimos para os nossos associados, que trazem clientes para conhecer os trabalhos...
- Tudo bem. Já entendi, obrigado...

Segui para onde o nariz estava apontado. Ainda bati no bolso para contar as moedas, mas lembrei que antes de sair de casa passei na budega para comprar o pão.
Dobrei a esquina ainda meio zonzo. Na Coronel Cascudo, encontrei Abimael e Jackson Garrido, a quem relatei a história. Coisa de cinco minutos, aparece Assis Marinho. Barba feita, cabelo engomado, calça social, camisa de botão e um saco de pão nas mãos. Abimael abre o sorriso de orelha a orelha e fala como se batesse no peito de orgulho: ‘esse é o Assis verdadeiro, e não aquele suplente de Anchieta Fernandes (diz em referência ao peso do artista)’. Assis devolve o sorriso, conta que está num quarto na Casa de Saúde, em tratamento, e se despede.

Não tenho a menor idéia se a porta da Achoxiachón do peruano já abriu ou vai abrir, um dia, para Assis Marinho. Certeza eu tenho de que artista nenhum no mundo se mantém dessa cultura trancada à espera da boa vontade de um cliente. É por isso que eu acredito em Assis Marinho e não dou um tostão furado pela tal Achoxiachón.