Um fim de tarde nas adjacências do Beco da Lama faz um bem danado. Até para conhecer, de fato, como funcionam as coisas por aqui. Após um compromisso furado e uma tristeza no peito com a cena do portão de ferro do bar de Nazaré arriado, em plena segunda-feira, resolvi seguir uma trilha à Bangu pelas ruas e travessas da Cidade Alta, reduto da outrora Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA).
Subi a Gonçalves Lêdo olhando o que resta dos sapateiros, ourives e chaveiros, dobrei na João Pessoa para encarar os engraxates com suas casamatas instaladas no calçadão, segui até a igreja do Galo que canta afinado só para as beatas e desci sem rumo. Do lado direito, já na Santo Antônio, o letreiro: Associação dos Artistas Plásticos Potiguares (AAPP). Instalada num casarão de fachada antiga, decidi bater para conhecer o local que o próprio presidente da casa, um peruano, me convidou para ver nos tempos idos em que ralava na editoria de cultura da Tribuna do Norte.
Lembro que, na época, o entrevistei por telefone, quando da inauguração da tal Associação. Depois, no bar de Nazaré. Como não sabia quem era, reconheci pelo sotaque quando, indagado por alguém que não me lembro o nome, disse o que fazia no Brasil sem, é claro, esquecer as origens:
- Soy presidente da Achoxiachón dos Artistas Plásticos Potiguares.
Da cena, nunca esqueci a cara vermelha do jornalista Léo Sodré, que quando parou de rir prometeu uma crônica para homenagear o presidente da tal entidade.
Devia ter deixado a visita para outro dia quando apertei o dedo na campanhia e o chamado soou três vezes. Se fosse na madeira, isolava e pegava o Beco. Mas fui em frente. No fundo, deu para ver um rapaz pintando uma tela até o peruano aparecer no corredor tomado de quadros e vir até a porta. Sem menção alguma de que fosse abrir, perguntou, educadamente, em que poderia me servir. Fui direto:
- Vim conhecer a associação.
O que ouvi, a partir dali, parecia em outro idioma.
- Mas quem é você?
- Eu!? Por quê? Só vim conhecer...
- Olha, a nossa galeria não é aberta assim. Só abrimos para os nossos associados, que trazem clientes para conhecer os trabalhos...
- Tudo bem. Já entendi, obrigado...
- Eu!? Por quê? Só vim conhecer...
- Olha, a nossa galeria não é aberta assim. Só abrimos para os nossos associados, que trazem clientes para conhecer os trabalhos...
- Tudo bem. Já entendi, obrigado...
Segui para onde o nariz estava apontado. Ainda bati no bolso para contar as moedas, mas lembrei que antes de sair de casa passei na budega para comprar o pão.
Dobrei a esquina ainda meio zonzo. Na Coronel Cascudo, encontrei Abimael e Jackson Garrido, a quem relatei a história. Coisa de cinco minutos, aparece Assis Marinho. Barba feita, cabelo engomado, calça social, camisa de botão e um saco de pão nas mãos. Abimael abre o sorriso de orelha a orelha e fala como se batesse no peito de orgulho: ‘esse é o Assis verdadeiro, e não aquele suplente de Anchieta Fernandes (diz em referência ao peso do artista)’. Assis devolve o sorriso, conta que está num quarto na Casa de Saúde, em tratamento, e se despede.
Dobrei a esquina ainda meio zonzo. Na Coronel Cascudo, encontrei Abimael e Jackson Garrido, a quem relatei a história. Coisa de cinco minutos, aparece Assis Marinho. Barba feita, cabelo engomado, calça social, camisa de botão e um saco de pão nas mãos. Abimael abre o sorriso de orelha a orelha e fala como se batesse no peito de orgulho: ‘esse é o Assis verdadeiro, e não aquele suplente de Anchieta Fernandes (diz em referência ao peso do artista)’. Assis devolve o sorriso, conta que está num quarto na Casa de Saúde, em tratamento, e se despede.
Não tenho a menor idéia se a porta da Achoxiachón do peruano já abriu ou vai abrir, um dia, para Assis Marinho. Certeza eu tenho de que artista nenhum no mundo se mantém dessa cultura trancada à espera da boa vontade de um cliente. É por isso que eu acredito em Assis Marinho e não dou um tostão furado pela tal Achoxiachón.