Estive hoje pela manhã em Ponta Negra acompanhando a pauta do meu colega Bruno Vasconcelos, repórter de esportes do DN. Fomos os dois no mesmo carro, ao lado da fotógrafa Joana Lima e do motorista Alexandre. Como meu destino era mais longe e Bruno tinha hora marcada, pegamos o rumo de Ponta Negra. Lá ainda esperamos alguns minutos até a chegado do Thoni, lateral-direito do América que, no último final de semana, fez um golaço aos 40 minutos do segundo tempo contra o Campinense, na Paraíba. Bruno já havia feito a matéria por telefone e, portanto, faltavam as imagens do sujeito. A pedido de Joana, Thoni posou tomando uma água de coco sentado numa das jangadas atracadas na areia e caminhando pelo calçadão da orla. Conversa vai, fotografia vem, entrei na conversa falando de futebol. Quando botei o Flamengo na roda, lembrando a infelicidade do babaca do Ronaldo Nazário, que duvidou essa semana do tamanho da maior torcida do mundo, notei que o atleta do América mudou o semblante. Quase imperceptível, mas achei estranho.
Eis, agora, o verdadeiro motivo desse pequeno texto. Esperei a turma silenciar e perguntei ao Thoni se ele tinha um time do coração, aquele clube que desde criança a gente aprende a amar e, ganhe ou perca, o amor não muda. Depois de mais uma golada na água de coco morna, o rapaz confessou, sem graça e com a cabeça baixa:
Eu ERA Vasco.
Ouviu-se ali, durante bons segundos, uma gargalhada incontida de minha parte e da parte do Bruno, outro rubro-negro. Constrangido, Thoni disse que o jogo entre América e Vasco seria disputado no dia do aniversário do pai dele, também vascaíno, agora no mês de agosto. Para não perder a piada e animar o cabisbaixo lateral americano, dei um um último conselho:
Seja profissional, Thoni. E aproveita para marcar mais dois.
Ele riu e, claro, eu também.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
DIRETO DA REDAÇÃO
Começo hoje, aqui neste espaço, a primeira série do Meio da Rua. Todas as terças-feiras, publicarei algumas pérolas testemunhadas por mim ou que tiveram esse jornalista que vos escreve como protagonista. Geralmente são histórias engraçadas que a gente costuma relembrar na conversa com os amigos, claro, em mesa de bar. Um detalhe importante: como não fui autorizado por ninguém a publicar mico dos outros, devo omitir os nomes dos verdadeiros autores de algumas acontecências das redações do Diário de Natal e da Tribuna do Norte, os dois jornais da cidade em que trabalhei. Hoje, de volta ao DN depois de três anos, sigo anotando as proezas que vejo. Tudo assim, Direto da Redação.
O DIA EM QUE A ENTREVISTA COM DOM HELDER CÂMARA CAIU NO BURACO
Conhecido pela atuação humanitária em favor dos pobres e, principalmente, dos perseguidos políticos na época da ditadura militar, o arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara morreu em 1999. Quando iniciei no jornalismo, dia 5 de agosto de 2005, conhecia pouco da biografia do santo padre pernambucano, mas o suficiente para saber que ele não estava mais entre nós. O problema é que, numa redação de jornal, não existe verdade absoluta. Ainda mais quando se está começando. E principalmente quando é o seu primeiro dia como estagiário num jornal da chamada grande imprensa potiguar, como o Diário de Natal.
Logo, qual não foi minha surpresa quando o chefe de reportagem do DN, Marcos Ramos, hoje editor do caderno Interior, do Jornal de Hoje, iniciou o seguinte diálogo:
- Você é católico?, perguntou-me o chefe.
- Sou, mas não pratico.
- Ah, pelo menos você não é crente. Acho que você é o repórter ideal. - Para quê?, retruquei já imaginando que faria a matéria do ano no primeiro dia de trabalho.
- Amanhã você vai entrevistar Dom Helder Câmara.
Aquilo, para mim, caiu como uma bomba. Mas fui em frente sem entender.
- Como?, eu questionei num misto de certeza e espanto.
- Dom Helder Câmara, o arcebispo, não conhece?
- Conheço.
- Então depois procure a biografia dele na internet para você saber quem é. Temos que checar que hora ele chega.
A essa altura eu já duvidava de tudo o que eu tinha aprendido na faculdade de jornalismo e, principalmente, já dava o velho quase como ressuscitado.
Tive uma idéia. Respirei fundo e imaginei, óbvio, que se tratava de alguma pegadinha do chefe com o estagiário, daquelas que a gente conhece só das histórias contadas por jornalistas mais velhos. Estava na cara: o chefe de reportagem queria me sacanear. Enquanto eu estivesse lendo a biografia resumida de Dom Helder Câmara na internet ele estaria mijado de tanto rir do trote em cima do otário aqui.
(Aqui, uma pausa. Quando entrei no jornal, a redação do Diário era escura, os móveis antigos e os computadores, provavelmente, eram os primeiros da era pós-maquina de escrever).
Pois bem. Vendo Marcos Ramos de um lado para o outro da redação, resolvi abordá-lo novamente. Fingi que esqueci o nome do entrevistado e retomei diálogo:
- Marcos, qual é o nome do arcebispo que eu vou entrevistar, mesmo?
- Dom Helder Câmara., ele repetiu para o meu desespero.
Continuei suando frio:
- Você tem certeza que é Dom Helder Câmara?
A essa altura do campeonato eu já estava com medo de dizer que o velho tinha morrido e ouvir que eu não sabia de nada e, por isso, não serviria para trabalhar em redação. Até que, sabe-se lá como e por onde, entrou um pouco de luz na redação do DN e a polêmica acabou quando Marcos Ramos pegou a pauta da minha mão.
- Peraí. Helder Câmara não! Você vai entrevistar o Dom Eugênio Sales, arcebisto de Natal, que está vindo do Rio de Janeiro. Dom Helder Câmara já morreu, cara!
Ele disse tudo isso rindo como se eu não soubesse do acontecido. Me deu dois tapinhas nos ombros antes de dizer que meu expediente já havia terminado.
Respirei aliviado e fui para casa vasculhar a vida de Dom Eugênio Sales na internet. Voltei no dia seguinte afiado e empolgado com a entrevista. Minha alegria acabou quando recebi a pauta: a entrevista foi repassada para outro repórter. Para mim, sobrou uma grande notícia: continuar, por telefone, a matéria de uma colega que participou, no dia anterior, das comemorações pelo aniversário de 1 ano de um buraco aberto próximo a praça do Relógio, no Alecrim.
Para quem ia entrevistar um defunto, cair num buraco foi um grande começo.
O DIA EM QUE A ENTREVISTA COM DOM HELDER CÂMARA CAIU NO BURACO
Conhecido pela atuação humanitária em favor dos pobres e, principalmente, dos perseguidos políticos na época da ditadura militar, o arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara morreu em 1999. Quando iniciei no jornalismo, dia 5 de agosto de 2005, conhecia pouco da biografia do santo padre pernambucano, mas o suficiente para saber que ele não estava mais entre nós. O problema é que, numa redação de jornal, não existe verdade absoluta. Ainda mais quando se está começando. E principalmente quando é o seu primeiro dia como estagiário num jornal da chamada grande imprensa potiguar, como o Diário de Natal.
Logo, qual não foi minha surpresa quando o chefe de reportagem do DN, Marcos Ramos, hoje editor do caderno Interior, do Jornal de Hoje, iniciou o seguinte diálogo:
- Você é católico?, perguntou-me o chefe.
- Sou, mas não pratico.
- Ah, pelo menos você não é crente. Acho que você é o repórter ideal. - Para quê?, retruquei já imaginando que faria a matéria do ano no primeiro dia de trabalho.
- Amanhã você vai entrevistar Dom Helder Câmara.
Aquilo, para mim, caiu como uma bomba. Mas fui em frente sem entender.
- Como?, eu questionei num misto de certeza e espanto.
- Dom Helder Câmara, o arcebispo, não conhece?
- Conheço.
- Então depois procure a biografia dele na internet para você saber quem é. Temos que checar que hora ele chega.
A essa altura eu já duvidava de tudo o que eu tinha aprendido na faculdade de jornalismo e, principalmente, já dava o velho quase como ressuscitado.
Tive uma idéia. Respirei fundo e imaginei, óbvio, que se tratava de alguma pegadinha do chefe com o estagiário, daquelas que a gente conhece só das histórias contadas por jornalistas mais velhos. Estava na cara: o chefe de reportagem queria me sacanear. Enquanto eu estivesse lendo a biografia resumida de Dom Helder Câmara na internet ele estaria mijado de tanto rir do trote em cima do otário aqui.
(Aqui, uma pausa. Quando entrei no jornal, a redação do Diário era escura, os móveis antigos e os computadores, provavelmente, eram os primeiros da era pós-maquina de escrever).
Pois bem. Vendo Marcos Ramos de um lado para o outro da redação, resolvi abordá-lo novamente. Fingi que esqueci o nome do entrevistado e retomei diálogo:
- Marcos, qual é o nome do arcebispo que eu vou entrevistar, mesmo?
- Dom Helder Câmara., ele repetiu para o meu desespero.
Continuei suando frio:
- Você tem certeza que é Dom Helder Câmara?
A essa altura do campeonato eu já estava com medo de dizer que o velho tinha morrido e ouvir que eu não sabia de nada e, por isso, não serviria para trabalhar em redação. Até que, sabe-se lá como e por onde, entrou um pouco de luz na redação do DN e a polêmica acabou quando Marcos Ramos pegou a pauta da minha mão.
- Peraí. Helder Câmara não! Você vai entrevistar o Dom Eugênio Sales, arcebisto de Natal, que está vindo do Rio de Janeiro. Dom Helder Câmara já morreu, cara!
Ele disse tudo isso rindo como se eu não soubesse do acontecido. Me deu dois tapinhas nos ombros antes de dizer que meu expediente já havia terminado.
Respirei aliviado e fui para casa vasculhar a vida de Dom Eugênio Sales na internet. Voltei no dia seguinte afiado e empolgado com a entrevista. Minha alegria acabou quando recebi a pauta: a entrevista foi repassada para outro repórter. Para mim, sobrou uma grande notícia: continuar, por telefone, a matéria de uma colega que participou, no dia anterior, das comemorações pelo aniversário de 1 ano de um buraco aberto próximo a praça do Relógio, no Alecrim.
Para quem ia entrevistar um defunto, cair num buraco foi um grande começo.
UMA ESTRELA SEM ALARDE

Vendo essa arrumação toda em volta do funeral de Michael Jackson, me lembrei da segunda vez em que estive em Ceará-mirim. Fui a trabalho, mas a visita rendeu algumas boas histórias. Antes do início da passeata que fui cobrir no dia, por exemplo, passou uma Kombi enferrujada na avenida principal da cidade anunciando, de um alto-falante acoplado ao carro, a morte e o local do sepultamento do finado Grandão da Cosern. Não tenho a menor idéia de quem foi o tal sujeito nem tive tempo de colher informações a respeito. Chamou-me atenção, no entanto, o burburinho dos moradores da cidade. A impressão era de que todos ali conheciam, ao menos de nome, Manoel Leopoldino, o popular Grandão da Cosern. Vizinhas de janela cochichavam, dois frentistas do posto de gasolina da cidade se entreolhavam como se não acreditassem na notícia e até uma manifestante do protesto que estava para acontecer passou a falar sozinha como se encomendasse a alma do finado.
Apesar de não ter acompanhado o cortejo que se sucedeu na parte da tarde e mexeu com Ceará-mirim, tenho certeza que o caixão não era folheado a ouro, os ingressos do velório não foram distribuídos pela internet e depois vendidos por R$ 20 mil dólares, e muito menos recebeu qualquer celebridade num show de cores, música e brilho. Tenho para mim, que se Michael Jackson pudesse ter voltado atrás, preferiria ter vivido, assim, como o Grandão da Cosern: longe da mídia, mas mesmo assim conhecido por meio mundo de gente. Uma estrela sem alarde. Nem a pompa de um pop star.
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