quarta-feira, 31 de março de 2010

RESPEITE QUEM PODE CHEGAR AONDE A GENTE CHEGOU



O samba começou a ser vítima de preconceito bem antes daquele tempo em que Don Don deitava e rolava no Andaraí, subúrbio do Rio de Janeiro, como narra a letra magistral de Nei Lopes interpretada por Dudu Nobre. Um preconceito, acima de tudo, social e de classe que, durante anos, evidenciou uma espécie de separação entre negros e brancos.

Ali pelos anos 20 e 30 do século passado, o samba ainda era restrito ao morro e, de fato, só desceu de lá para o asfalto quando a turma da Bossa Nova, que veio bem depois, nos anos 60, deixou a Zona Sul carioca para ouvir Cartola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e uma porção de outros craques que se apresentavam num sobrado alugado da rua da Carioca, em pleno Centro do Rio. O Zicartola, como o bar era chamado em homenagem à dupla dona Zica e Cartola, que comandava os trabalhos no boteco, foi, sem dúvida, um marco que amenizou esse tal preconceito que taxava de bandido sambista pego na rua com um pandeiro na mão.

Tempos difíceis que volta e meia dão o ar da graça. Um exemplo disso é o processo que um servidor move agora contra o Sindsaúde pelo simples fato do Sindicato contribuir financeiramente com as rodas de samba organizadas pelo grupo Nós do Beco, na primeira sexta-feira de cada mês, na Cidade Alta. O sujeito acusa a entidade de promover bebedeiras com dinheiro dos sócios.

Pagando metade do cachê do grupo e incentivando a presença dos servidores da saúde no samba através de divulgação e distribuição de duas fichas para consumo no bar do Pedrinho, onde acontece a roda, o Sindicato encontrou uma forma de resistir e proteger a cultura brasileira da interferência ditatorial e impositiva dos meios de comunicação comerciais que empurram goela abaixo do público um produto de gosto duvidoso, mas de fácil alcance.

O samba merece respeito por tudo o que passou e conquistou nesses anos de história. É como diz a bela letra de Jorge Aragão: “respeite quem pode chegar aonde a gente chegou!”

segunda-feira, 29 de março de 2010

ARMANDO NOGUEIRA



Por conta da briga com um câncer no cérebro, Armando Nogueira já não atuava na crônica esportiva há algum tempo. Ainda assim, a notícia de sua morte, divulgada hoje pela manhã, no Rio de Janeiro, aos 83 anos de idade, nos lança a uma época na qual uma parcela dos jornalistas eram mitos, e não simples funcionários de jornais.

Natural do Acre, embora tenha feito carreira no Rio, Armando Nogueira não é nem nunca foi uma unanimidade. Foi diretor das Organizações Globo, por exemplo, num período em que a toda poderosa ajudou a camuflar as manifestações em favor da redemocratização do país. Estava lá também quando a empresa de Roberto Marinho tentou, em vão, fraudar a eleição para o Governo do Rio em 1982, conquistada pelo declarado inimigo nº 1 da Rede Globo, o gaúcho Leonel de Moura Brizola.

Durante a apuração, realizada de forma extremamente lenta pela empresa Proconsult, contratada pelo TRE, Brizola e Nogueira chegaram a bater boca. No livro ‘Plin Plin: a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral’, o jornalista Paulo Henrique Amorim destrincha o escândalo e a tentativa da Globo de fazer governador o opositor de Brizola, o ex-deputado e governador do Rio, Moreira Franco.

Noves fora a polêmica passagem pela emissora da família Marinho, Armando Nogueira deitou e rolou como um craque na crônica esportiva. Escrevia como ninguém sobre a peleja dos gramados brasileiros. E, acredito eu, é na grande área que ele gostaria de entrar para a história da imprensa tupiniquim.

Semana passada, inclusive, lembrei aqui na redação do NOVO JORNAL de uma história envolvendo Armando e um de seus grandes amigos, o não menos genial dramaturgo e cronista, Nelson Rodrigues.

A dupla ia ao Maracanã junta e, nas cadeiras, sentavam também um ao lado do outro. Os olhos vidrados no gramado e a cabeça voando com as pernas tortas de Garrincha ou com a serenidade e elegância de Nilton Santos. O problema é que Nelson era míope e não enxergava quase nada do que acontecia no campo. Reza a lenda que nos lances em que a galera se desmanchava em ‘uuuuuhhhhhhhs’, o autor de ‘Vestido de Noiva’ virava para o amigo e dizia sem a menor cerimônia:

- Armando, o que foi mesmo que nós vimos?

Até.