Na história do clássico entre Flamengo e Botafogo, há gols contra que entraram para a história. Lembro de ter escutado pelo rádio uma, até então, vitória tranqüila do Mengão por 3 a 1. Chovia muito no Maraca naquela tarde de domingo. O Flamengo tinha Zico, mas também tinha o Gonçalves, que se tornou um bom zagueiro depois e fez muito mais sucesso jogando pelo Bota.
Pois bem. Deviam faltar uns 15 minutos para acabar a partida quando o distinto Gonçalves se viu pressionado pelo atacante alvinegro e tentou recuar para o Zé Carlos. Digo tentou porque a bola simplesmente encobriu o goleiro e foi morrer no fundo da rede. Empolgado pelo gol ‘‘achado’’, o Botafogo foi para frente e conseguiu, no finzinho, empatar a partida em 3 a 3. Dia desses, vendo uma dessas mesas-redondas na TV fechada, o Gonçalves comentou que, no vestiário, o Zico lhe deu uma bronca que funcionou como uma lição que carregaria para a vida inteira:
- Zagueiro nunca recua bola para o goleiro na direção do gol. Porque se o goleiro tiver uma parada cardíaca na hora a bola, pelo menos, sai em escanteio.
Sábias palavras do Galinho. Mas precisava ter dito só depois da merda feita? Bom, outra vida que segue. Até porque se os botafoguenses ainda lembram com carinho do gol contra do Gonçalves, rubro-negro nenhum no mundo esquece o passe magistral do Márcio Theodoro para o Romário na final da Taça Guanabara, em 1995. Tudo bem que o gol não foi contra, mas teve o mesmo efeito. O Mengo virou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0, levou o empate no segundo tempo e, aos 42 minutos do fim, a bola sobe demais na entrada da área, Márcio Theodoro tenta recuar de cabeça, mas o baixinho Romário chega na frente e fecha a conta em 3 a 2. O zagueirão acabou caindo nas graças da nação rubro-negra que, até hoje, se refere a ele como o nosso eterno Márcio Ti Adoro.
Pois bem. Todo esse preâmbulo aqui foi para lembrar do fenômeno dos gramados brasileiros da atualidade. E olha que não é do Ronaldo que eu estou falando. O nome do cara é Emerson, zagueiro do Botafogo, um predestinado a botar a bola para dentro, mas na rede errada. Não bastasse o gol contra feito na final da Taça Rio, depois do cruzamento do Juan, o sujeito me faz outro na primeira decisão do Estadual.
O engraçado é que, uma hora antes da partida, passei na casa do meu sogro, grande Botafoguense, que me deu o recado:
- Olha, hoje não vai ter a moleza do jogo passado, não. Aquele tal de Emerson não vai jogar!
Bom, como não tinha visto ainda as escalações, acreditei na palavra dele e fui para casa, até para que nada desse errado. Sentei no sofá devidamente municiado de um latão geladíssimo de Brahma Fresh e, de repente, me pinta os times na tela. De cara, o nome confirmado na zaga: Emerson. Lembrei na hora do que disse seo Naílson, mas fiquei na minha. Jogo vai, jogo vem, o Botafogo bem melhor e o Flamengo bem pior que o jogo passado, mas ainda assim equilibrado. Então, aos 39 minutos do segundo tempo, Willians ganha uma bola na raça do zagueiro, dá uma pancada para o meio da área e a bola caprichosamente encontra (quem?) o Emerson. Gol de empate, segundo gol contra do cara em duas partidas. Há quem diga que foi azar, outros vão dizer que foi sorte do Flamengo. Tem também a turma que vai insistir com aquela história de que existem coisas que só acontecem ao Botafogo. Eu, sinceramente, se fosse botafoguense, ficaria com o que meu sogro disse assim ouviu minha voz ao telefone, depois do jogo, num tom que em nada lembrava o cara espirituoso de antes da partida:
- ESSE CARA TEM QUE DESAPARCER DO BOTAFOGO!!!!!!!!
Que Deus e, principalmente, o Ney Franco não escutem essa prece.
Não os livrai do mal,
Amém.