Ir ao médico nunca foi um dos meus passeios favoritos. Nem acompanhando alguém doente e muito menos quando o paciente sou eu. No entanto, por obra e graça de alguma força estranha que me derrubou essa semana, parei duas vezes na urgência do hospital da Unimed. Meus braços, como disse o dublê de palhaço que me atendeu no terceiro dia, estão mais furados que tábua de pirulito. Foram dois hemogramas, um tubo de soro, uma injeção de dipirona e de outro medicamento que não guardei o nome. Pelo menos até agora, tudo em vão.
Bom, mas como isso aqui não é diário nem estou a fim de me confessar, vamos a história. Depois dos dois resultados dos hemogramas, a segunda médica que me atendeu olhou para minha cara e disse que não tinha bagagem para saber o que se passava comigo. Falou em suspeita de dengue, infecção, virose, descartou a tal gripe suína, enfim, acabou me deixando mais confuso do que quando eu entrei no consultório.
Fui, então, procurar a ajuda do infectologista. Imaginei, cá comigo, que passaria a manhã inteira fazendo exames, raio-X e o escambau. Para minha surpresa, embora não tenha levado o relógio, a conversa com o doutor não levou mais que dez minutos. Nunca me arrependi tanto de dizer a alguém minha profissão.
Foi o bastante para o sujeito de jaleco descer a mamona em Lula, no PT e me cobrar uma atitude pela queda do diploma de jornalista. Eu ia escutando o sermão com aquela moleza e a dor de cabeça que me levaram até ali. O médico dizia e eu balançava a cabeça tentando segurar o mundo que rodava envolta. Mostrou-me até o livro que lia no momento, sobre ética médica, e tome falar mal de Lula. Lá pelas tantas, sem que eu tenha esboçado reação alguma, disse que era filiado ao PMDB. E o PMDB, no conceito do sujeito de branco, “é um partido que tem toda qualidade de gente: tem o Sarney, mas também tem o Pedro Simon e o Jarbas Vasconcelos”, disse.
Entre um discurso e outro, o doutor descartou a dengue e, mesmo dizendo que na medicina nada é 100% garantido, falou que meu caso era de infecção primária. Perguntei por exames, ele disse que não precisava e iria me passar dois remédios. Caso não melhorasse, que eu retornasse ao consultório uma semana depois (provavelmente, e dependendo da gravidade da infecção, já num caixão de defunto).
Por fim, meteu o pau no Lula e no PT mais uma vez e me perguntou porque eu e meus colegas jornalistas não fazíamos uma caravana em direção a Brasília para invadir o Congresso Nacional, “mas sem quebrar nada porque senão fica parecido com as ações criminosas do MST”. Ri um sorriso sem graça e amarelo e inventei de falar que o Gilmar Mendes estava em Natal. Ao ouvir o nome do ministro do STF, o mesmo que cassou o diploma de jornalista, o letrado doutor me perguntou quem era o cabra. Respirei fundo e expliquei pacientemente que era o homem que havia motivado todos os sermões que ele me dera desde que entrei no consultório. Ele arregalou o olho e questionou porquê eu não ia tirar satisfação com o algoz dos jornalistas. Já puto da vida, retruquei demonstrando irritação que não fui porque estava, naquele momento, na frente de um infectologista tentando descobrir o que diabos era o que eu estava sentindo desde segunda-feira. Foi o bastante para que ele arregalasse os olhos pela segunda vez e sacasse o bloco de receitas:
- Rapaz, então vou lhe receitar logo esse remédio para que dê tempo de você falar com o hômi. Boa sorte!
A moleza e a dor no corpo me impediram de fazer o mesmo que o Collor fez semana passada, quando mandou o Pedro Simon enfiar alguma coisa num lugar que todo mundo entendeu. Me levantei, saí pela mesma porta que entrei e entendi porque os dois pacientes que haviam marcado consulta antes de mim, ainda não haviam dado o ar da graça.
Rezem por mim.
