quinta-feira, 10 de junho de 2010

UM DESABAFO

Além de tirar o tesão do brasileiro que pagava para assistir o escrete levantando o caneco jogando aquele futebol alegre que nada tem a ver com saudosismo, só com respeito às nossas raízes, a seleção evangélica de Dunga abençoada por Jorginho também fez o favor de exterminar uma das maiores tradições brasileiras: a de vibrar com os craques do time do coração.

Em toda Copa, embora a Seleção tenha o poder de unir o país, as paixões clubísticas sempre falavam tão alto como o som das vuvuzelas. É fato que essa devoção diminuiu com o êxodo para a Europa. Mas a emoção era única. Em toda convocação, a expectativa de ver vestindo a amarelinha os melhores do seu time fazia o coração disparar como nos segundos que separavam uma falta cobrada pelo Zico da rede balançando.

Que santista e botafoguense não olha para trás e sente ainda mais orgulho pelos títulos de 58 e 62 que tiveram Pelé e Garrincha na ponta dos cascos? Ou em 70 quando Pelé, Gérson, Jairzinho, Carlos Alberto, Rivelino e Tostão faziam chorar mais forte botafoguenses, santistas, corinthianos e cruzeirenses?

Que festa fizeram em 82 rubro-negros com o samba no pé de Júnior, Leandro e do Galinho acompanhados de colorados e corinthianos na torcida mais fanática por Falcão e o dr. Sócrates? E como esquecer vascaínos lembrando que Romário, até então só com a cruz de malta no peito, tinha sido convocado às pressas para resolver a parada?

Haviam sim cruzeirenses orgulhosos de um tal Fenômeno em 2002, como palmeirenses não esquecerão jamais um nordestino que se dizia vítima de preconceito chamado Rivaldo.

Lembrei dessa história, desses gênios, desse choro preso, durante o amistoso com a Tanzânia. Felipe Melo, Flamengo de berço, é a antítese de tudo aquilo que foi dito até aqui. Grosseiro, bruto, perna de pau. Dito isso, só me permitam um pedido: se a Seleção trouxer o hexa, me xinguem, falem mal dos boleiros, destruam minha reputação, mas por favor: esqueçam que o Felipe Melo nasceu na Gávea!

terça-feira, 8 de junho de 2010

PRECONCEITO NA FOLHA

A dita cuja grande imprensa segue vomitando seu preconceito de merda e escancarando ainda mais a vala entre pobres e ricos desse país. Em chamada de capa, a Folha de São Paulo de hoje traz a seguinte pérola:

"Moradores pobres são removidos para a periferia da Cidade do Cabo"

Um nojo. Fossem ricos ou de classe média, a rapaziada certamente seria 'transferida' ou 'transportada' para outro 'bairro' ou 'região'.

Pobre, para a FSP, é removido. Como lixo, merda ou qualquer porcaria sem nome, endereço, enfim, sem identidade.

Haja estômago!

sábado, 5 de junho de 2010

O INTÉRPRETE DO BECO

Dickson é anarquista, fã de Raul Seixas e professor de geografia da rede pública. Gente boa da melhor qualidade. Sempre o encontro entre cascos e mais cascos de Brahma no bar de Nazaré, invariavelmente nos três turnos.

Ontem, o ponteiro do relógio já perto das 22h, cheguei ao boteco para dar aquela lavada no fígado antes de descer para o samba no bar do Pedrinho. Dickson estava lá, pelo andar da carruagem desde o início da tarde. Sentado à mesa devidamente instalada entre os paralelepípedos da rua coronel Cascudo, se derramava numa canção antiga para o desespero dos amigos que o acompanhava naquele começo de noite. Um número que faria corar de vergonha o finado Helmut, melhor intérprete de Nelson Gonçalves da história do Beco da Lama.

Não quis incomodá-lo e sentei-me à mesa dois, próximo ao balcão, dentro do estabelecimento. Finda a cantoria, hora de pagar a conta. Dickson se dirige ao recinto contando as moedas dos três cascos que lhe coube na dolorosa. Dinheiro curto, senti que a coisa tinha apertado. O professor vira para o lado, mira os olhos da dona do botequim e manda na lata:

- Tem uma moeda aí, Nazaré?

Silêncio no bar.

Refeita do susto em três longos segundos, a mãe do Paulinho não acreditou na ousadia do cliente e amigo:

- Mas esse Dickson é muito cara de pau mesmo!

Com medo que a reação descambasse para a agressão física, o grand finale saiu melhor que a encomenda:

- Calma Nazaré, eu estava só interprentando...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

PRA CIMA DELES, MENGÃO!

Neste momento, me preparo para deixar a redação do NOVO JORNAL rumo ao samba de Nazaré, na rua Coronel Cascudo. Um esquente e tanto para a peleja de logo mais quando, a partir das 22h15, o MENGÃO enfrenta o Universidad do Chile. Uma legião de secadores em todo o Brasil também estará a postos para aumentar a corrente chilena, entre eles Cefas Carvalho, Alexandre Honório, Alex de Souza, Prado, Carlos Magno Araújo, Cassiano Arruda e tantos outros milhares. A NAÇÃO, no entanto, está com o time. E isso basta. Como bastará os dois gols de diferença que faremos no Chile. Hoje, anotem, a noite será do Imperador e de Vágner Love.

No bolão aqui da redação, que dará ao ganhador R$ 62, 17 palpites cravaram vitória rubro-negra contra 13 do time chileno e apenas um empate. Por motivos óbvios ainda não sei o resultado do jogo, mas há um detalhe que todos precisam saber:

JAMAIS DUVIDEM DO FLAMENGO.

Amanhã, qualquer que seja a conta, estarei de volta para pagar.

PRA CIMA DELES, MENGÃO!

A SOLIDÃO VIVE NO BORDEL

Um almoço no bar de Nazaré, adjacência mais famosa do Beco da Lama, não é um programa que se faça sem esperar qualquer surpresa. Pois como cheguei de lá há pouco tempo divido algumas acontecências. Vinha eu caminhando por trás da Assembleia Legislativa em direção ao botequim, quando uma mulher relativamente bem vestida e dentro de uma sala anexa à Casa grita como que pedindo socorro:

- A solidão vive no bordeeeeel.

Olhei procurando a mulher de novo, para juntar a frase à pessoa, mas a distinta senhora, que pela firmeza das palavras deve frequentar o cabaré com uma assiduidade canina, já tinha sumido.

Seria uma puta ou apenas uma cliente dos bordeis mais discretos?

Sem resposta, e já abancado na mesa 1 do botequim com Luana e Marcos Bezerra que chegaram para almoçar logo em seguida, entra Tertuliano no buteco com aquela ruma de CDs independentes. Contei empolgado da tal constatação da mulher misteriosa e prepus que, na pele do mito Cabrito, usasse a frase, que parece pinçada de um samba-canção de Lupicínio Rodrigues, como verso de uma das canções pornoeróticas do próximo CD. Gostou, mas não disse nada.

O próximo show do Cabrito, naquele castelo medieval às margens da Rota do Sol, está para acontecer nos próximos dias.

É esperar para ver...