Para muitos, como eu, hoje é uma segunda-feira negra, terrível, cruel. Um dia pra ser esquecido, pra ser riscado do calendário junto com todo o final de semana que passou.
É dia em que acordamos numa tremenda ressaca, mesmo que não tenhamos bebido nada, como é o meu caso.
É o dia em que acordamos e vemos que é verdade, que não foi sonho. Sim, o nosso time perdeu o campeonato.
Nas primeiras horas após o jogo, ainda estamos meio aéreos, tontos. Somente no dia seguinte é que nos damos conta da tragédia, e aí entendemos que o pesadelo é real.
Hoje é dia de se torturar revendo os lances do jogo, de se lamentar pelos gols perdidos, pelas falhas da defesa.
É dia de encarar os amigos na rua ou no trabalho, e suportar, calado, gozações, provocações e humilhações.
Hoje é dia de enxergar que o nosso time chegou bem perto, mas que conseguiu a mesma coisa de quem não estava na final: nada!
Há quem seja menos emocional e diga que é muito bom ser o segundo colocado numa competição tão difícil, que valeu a pena, que foi honrando, que blá, blá, blá...
Somente quem é torcedor de verdade sabe como é doloroso admitir que é vice-campeão, como é ruim perder uma final, ainda mais quando se trata de perder para um arqui-inimigo.
Para explicar melhor esse sentimento, transcrevo abaixo um texto que me pareceu bastante atual, embora tenha sido escrito há dez anos. Trata-se de um texto de José Roberto Torero, santista como eu, feito na ocasião para a Folha de S. Paulo, e publicado novamente hoje em www.blogdotorero.blog.uol.com.br.
Um abraço a todos e parabéns aos que acordaram felizes. Aos cabisbaixos, vida que segue. Fiquem com o texto.
OS VICES SÃO OS ÚLTIMOS José Roberto Torero
(Dez anos atrás escrevi este texto na Folha. Não sei o porquê, mas achei que era hora de republicá-lo aqui)
Esse ano foi o ano dos vices. O Brasil foi vice na Copa do Mundo, o Vasco foi vice-campeão mundial, e talvez hoje o Cruzeiro se transforme num trivice, chegando em segundo na Copa do Brasil, no Campeonato Brasileiro e na Mercosul.
Pensando sobre isso, fiz-me uma filosófica pergunta: "Há coisa pior do que ser vice?".
Como não havia ninguém por perto, eu mesmo me respondi: "Não, nada é pior do que vice."
Um racional ortodoxo poderia dizer que ser vice não é assim tão ruim; que ser terceiro, quinto ou 19º é muito pior.
Mas seria raciocínio de economista, não de torcedor.
O torcedor, melhor conhecedor dos labirintos da alma, sabe que o vice é a pior colocação possível.
O terceiro colocado passa sempre por um esforçado de futuro, do quinto se diz que fez um bom trabalho de base, e o décimo nono fez milagres para não cair para a segunda divisão.
Todas as outras colocações recebem algum elogio, menos o vice. O pobre segundo colocado talvez seja o único derrotado nas competições. E, mesmo que não seja o único, certamente é o maior de todos. Ainda mais quando há uma final de campeonato, um duelo decisivo.
Os outros participantes são apenas os outros participantes.
O vice não.
O vice é aquele que perdeu, aquele que foi vencido.
Foi ele que chegou até o último degrau e escorregou, foi que ele que chegou até os portais da glória e esqueceu a chave.
Para o vice não há consolo e, muitas vezes, nem perdão.
Várias imagens passavam pela minha cabeça para simbolizar o que é ser vice.
Deixo duas aqui na tentativa de melhor definir essa tortura, esse suplício, esse flagelo do espírito:
1) Um náufrago está à deriva durante semanas, sem ter o que comer nem beber, apenas apoiado num pequeno pedaço de madeira e castigado pelo sol inclemente. Ele então, como por milagre, vislumbra uma praia paradisíaca. Ela está a menos de cem metros. Daqui a algumas braçadas ele poderá até tocar os pés no chão. Lágrimas salgadas como o mar caem dos seus olhos. Ele está feliz, quase em êxtase. Mas aí aparece um tubarão...
2) O pára-quedista salta. Porém, como que amaldiçoado pelos deuses, seu pára-quedas não abre. Ele vê o chão se aproximando rapidamente e já pode imaginar seu corpo transformado num mórbido quebra- cabeça. É então que ele se lembra do pára-quedas reserva. Ele puxa a alça ao mesmo tempo em que reza um Pai Nosso. Funciona! Em poucos segundos, o pára- quedista está descendo lentamente, embalado por uma leve brisa. Ele encontra até tempo para observar a paisagem. Um sorriso de prazer e alívio está em seu rosto. Porém ele repara que está pousando dentro de um pequeno zoológico. Para seu azar, bem na jaula do leão. E o leão está faminto.
Enfim, ser vice é como ver um belo pôr-do-sol e queimar a retina, é ter a felicidade ao alcance da mão e ser maneta, é viver num harém, mas ser apenas um eunuco.
Pobres dos vices.
Felizes daqueles que ficam entre o décimo e o vigésimo lugar, sentados na cômoda espreguiçadeira da mediocridade.
Um comentário:
O DIA SEGUINTE
(Armando Miranda)
Para muitos, como eu, hoje é uma segunda-feira negra, terrível, cruel. Um dia
pra ser esquecido, pra ser riscado do calendário junto com todo o final de
semana que passou.
É dia em que acordamos numa tremenda ressaca, mesmo que não tenhamos bebido nada, como é o meu caso.
É o dia em que acordamos e vemos que é verdade, que não foi sonho. Sim, o nosso time perdeu o campeonato.
Nas primeiras horas após o jogo, ainda estamos meio aéreos, tontos. Somente no
dia seguinte é que nos damos conta da tragédia, e aí entendemos que o
pesadelo é real.
Hoje é dia de se torturar revendo os lances do jogo, de se lamentar pelos gols
perdidos, pelas falhas da defesa.
É dia de encarar os amigos na rua ou no trabalho, e suportar, calado, gozações,
provocações e humilhações.
Hoje é dia de enxergar que o nosso time chegou bem perto, mas que conseguiu a mesma coisa de quem não estava na final: nada!
Há quem seja menos emocional e diga que é muito bom ser o segundo colocado numa competição tão difícil, que valeu a pena, que foi honrando, que blá, blá, blá...
Somente quem é torcedor de verdade sabe como é doloroso admitir que é
vice-campeão, como é ruim perder uma final, ainda mais quando se trata de
perder para um arqui-inimigo.
Para explicar melhor esse sentimento, transcrevo abaixo um texto que me pareceu bastante atual, embora tenha sido escrito há dez anos. Trata-se de um texto de José Roberto Torero, santista como eu, feito na ocasião para a Folha de S. Paulo, e publicado novamente hoje em www.blogdotorero.blog.uol.com.br.
Um abraço a todos e parabéns aos que acordaram felizes. Aos cabisbaixos, vida que segue. Fiquem com o texto.
OS VICES SÃO OS ÚLTIMOS
José Roberto Torero
(Dez anos atrás escrevi este texto na Folha. Não sei o porquê, mas achei que era
hora de republicá-lo aqui)
Esse ano foi o ano dos vices. O Brasil foi vice na Copa do Mundo, o Vasco foi
vice-campeão mundial, e talvez hoje o Cruzeiro se transforme num trivice,
chegando em segundo na Copa do Brasil, no Campeonato Brasileiro e na Mercosul.
Pensando sobre isso, fiz-me uma filosófica pergunta: "Há coisa pior do que ser
vice?".
Como não havia ninguém por perto, eu mesmo me respondi: "Não, nada é pior do que
vice."
Um racional ortodoxo poderia dizer que ser vice não é assim tão ruim; que ser
terceiro, quinto ou 19º é muito pior.
Mas seria raciocínio de economista, não de torcedor.
O torcedor, melhor conhecedor dos labirintos da alma, sabe que o vice é a pior
colocação possível.
O terceiro colocado passa sempre por um esforçado de futuro, do quinto se diz
que fez um bom trabalho de base, e o décimo nono fez milagres para não cair
para a segunda divisão.
Todas as outras colocações recebem algum elogio, menos o vice. O pobre segundo
colocado talvez seja o único derrotado nas competições. E, mesmo que não seja o
único, certamente é o maior de todos. Ainda mais quando há uma final de
campeonato, um duelo decisivo.
Os outros participantes são apenas os outros participantes.
O vice não.
O vice é aquele que perdeu, aquele que foi vencido.
Foi ele que chegou até o último degrau e escorregou, foi que ele que chegou até
os portais da glória e esqueceu a chave.
Para o vice não há consolo e, muitas vezes, nem perdão.
Várias imagens passavam pela minha cabeça para simbolizar o que é ser vice.
Deixo duas aqui na tentativa de melhor definir essa tortura, esse suplício, esse
flagelo do espírito:
1) Um náufrago está à deriva durante semanas, sem ter o que comer nem beber,
apenas apoiado num pequeno pedaço de madeira e castigado pelo sol inclemente.
Ele então, como por milagre, vislumbra uma praia paradisíaca. Ela está a menos
de cem metros. Daqui a algumas braçadas ele poderá até tocar os pés no chão.
Lágrimas salgadas como o mar caem dos seus olhos. Ele está feliz, quase em
êxtase. Mas aí aparece um tubarão...
2) O pára-quedista salta. Porém, como que amaldiçoado pelos deuses, seu
pára-quedas não abre. Ele vê o chão se aproximando rapidamente e já pode
imaginar seu corpo transformado num mórbido quebra- cabeça. É então que ele se
lembra do pára-quedas reserva. Ele puxa a alça ao mesmo tempo em que reza um
Pai Nosso. Funciona! Em poucos segundos, o pára- quedista está descendo
lentamente, embalado por uma leve brisa. Ele encontra até tempo para observar a
paisagem. Um sorriso de prazer e alívio está em seu rosto. Porém ele repara que
está pousando dentro de um pequeno zoológico. Para seu azar, bem na jaula do
leão. E o leão está faminto.
Enfim, ser vice é como ver um belo pôr-do-sol e queimar a retina, é ter a
felicidade ao alcance da mão e ser maneta, é viver num harém, mas ser apenas um
eunuco.
Pobres dos vices.
Felizes daqueles que ficam entre o décimo e o vigésimo lugar, sentados na cômoda
espreguiçadeira da mediocridade.
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