
Mais um personagem do Beco da Lama pediu a saideira. Helmut Cândido, o filósofo do Beco, pagou a conta sábado à noite, 2 de maio. Era uma das figuras mais excêntricas do Centro Histórico. Andava para tudo quanto é canto a pé com sua inseparável piúba de cigarro. A impressão que dava é de que Helmut fumava sempre a mesma piúba e bebia sempre o mesmo trago de cachaça. Se alguém quisesse encontrá-lo tinha um endereço certo: Sebo Vermelho, do amigo Abimael Silva. O sebista editou os dois únicos livros que Helmut publicou. Um deles falava da época em que o filósofo trabalhava como carteiro e entregava as correspondências na casa de ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. O Carteiro de Cascudo. E assim batizou seu último livro.
De Helmut, guardo algumas lembranças. Numa delas, em plena tarde de semana no bar de Nazaré, destilou com uma voz rouca um repertório de pérolas do ídolo Nelson Gonçalves. Foi aplaudido e ainda ouviu pedidos de bis da comunidade que bebia na grande mesa formada na calçada do buteco. Ano passado, também em Nazaré, me veio com a voz baixinha e um pedaço de guardanapo. No papel, um poema e o valor escrito na hora à mão: R$ 2. Era tudo o que precisava para descer mais um trago de pinga. Paguei e guardei o guardanapo, que deve estar escondido em algum lugar aqui em casa. Quando faltava grana para a birita, o modus operandi era sempre esse: arrumava um guardanapo, escrevia uns versos e tentava trocar por uns trocados.
A terceira lembrança é a mais dolorida. Quando nasceu o Meio da Rua, em outubro de 2008, o encontrei no Beco e disse que queria entrevistá-lo. Ele pensou que fosse para o jornal, ficou empolgado. Expliquei que era para um Blog, na internet. Mesmo assim aceitou. Ficamos de marcar. Às vezes me encontrava em Nazaré e perguntava se não podia ser ali, naquele momento. Eu, desprevenido, disse que estava sem papel e caneta. E ficava adiando a nossa conversa. Chegamos a marcar o encontro, mas o trabalho me fez adiar mais uma vez. Fácil jogar a culpa na rotina diária. Remorso é fogo. Helmut: o filósofo do Beco, o Carteiro de Cascudo. Não importa o que virá na lápide: estará sempre com aquela calça surrada, chinela havaiana e a inseparável piúba de cigarro que fumou até a última ponta.
2 comentários:
Que os deuses da boemia o recebam.
Eu também tenho um guardanapinho desses, pelo qual paguei R$2,00.
Abraço!
Não tinha ainda lido seu comentário, Rafael, leio agora e mais uma vez me emociono, nos ultimos tempos(antes da internação dele, tenho ojeriza a hospitais, só entro se eu for o 'internado') conversava muito com Helmut, longas conversas regadas a cachaça dele e meu costumeiro uisque.
Se antes eu já admirava Helmut, através de Abimael, seu maior e mais querido amigo, passei a admira-lo ainda mais conversando sobre cinema, filosofia et caterva.
Planejamos algo digno para prantear a memória do nosso grande amigo, breve lhe informaremos.
Oswaldo
Postar um comentário