segunda-feira, 29 de março de 2010

ARMANDO NOGUEIRA



Por conta da briga com um câncer no cérebro, Armando Nogueira já não atuava na crônica esportiva há algum tempo. Ainda assim, a notícia de sua morte, divulgada hoje pela manhã, no Rio de Janeiro, aos 83 anos de idade, nos lança a uma época na qual uma parcela dos jornalistas eram mitos, e não simples funcionários de jornais.

Natural do Acre, embora tenha feito carreira no Rio, Armando Nogueira não é nem nunca foi uma unanimidade. Foi diretor das Organizações Globo, por exemplo, num período em que a toda poderosa ajudou a camuflar as manifestações em favor da redemocratização do país. Estava lá também quando a empresa de Roberto Marinho tentou, em vão, fraudar a eleição para o Governo do Rio em 1982, conquistada pelo declarado inimigo nº 1 da Rede Globo, o gaúcho Leonel de Moura Brizola.

Durante a apuração, realizada de forma extremamente lenta pela empresa Proconsult, contratada pelo TRE, Brizola e Nogueira chegaram a bater boca. No livro ‘Plin Plin: a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral’, o jornalista Paulo Henrique Amorim destrincha o escândalo e a tentativa da Globo de fazer governador o opositor de Brizola, o ex-deputado e governador do Rio, Moreira Franco.

Noves fora a polêmica passagem pela emissora da família Marinho, Armando Nogueira deitou e rolou como um craque na crônica esportiva. Escrevia como ninguém sobre a peleja dos gramados brasileiros. E, acredito eu, é na grande área que ele gostaria de entrar para a história da imprensa tupiniquim.

Semana passada, inclusive, lembrei aqui na redação do NOVO JORNAL de uma história envolvendo Armando e um de seus grandes amigos, o não menos genial dramaturgo e cronista, Nelson Rodrigues.

A dupla ia ao Maracanã junta e, nas cadeiras, sentavam também um ao lado do outro. Os olhos vidrados no gramado e a cabeça voando com as pernas tortas de Garrincha ou com a serenidade e elegância de Nilton Santos. O problema é que Nelson era míope e não enxergava quase nada do que acontecia no campo. Reza a lenda que nos lances em que a galera se desmanchava em ‘uuuuuhhhhhhhs’, o autor de ‘Vestido de Noiva’ virava para o amigo e dizia sem a menor cerimônia:

- Armando, o que foi mesmo que nós vimos?

Até.

Um comentário:

Armando Miranda disse...

Também prefiro ficar com a imagem daquele Armando Nogueira que 'poemizou' a crônica esportiva. Como diretor de jornalismo da 'Grobo' ele teve alguns atos, digamos, nao muito elogiáveis...