quarta-feira, 21 de abril de 2010

50 ANOS



Já disse há muita gente que no dia em que eu chegar aos 50 anos gostaria de poder dizer tudo aquilo que Aldir Blanc e Cristovam Bastos falaram no antológico samba "50 anos" (a gravação de Paulinho da Viola é simplesmente sensacional). Os versos "Perdoo a todos, não peço desculpas / Foi isso o que eu quis viver" estará, saibam de antemão, gravado em meu epitáfio no dia em que chegar a hora.

E é assim, definitiva, a homenagem que presto a minha amada Brasília. Uma cidade diferente onde se vive, se morre, se bebe, se come, se rouba, se paga, se perde e se ganha. São 50 anos de muitas estórias. É hora, pois, de prestar conta.

50 ANOS

Eu vim aqui prestar contas
De poucos acertos
De erros sem fim
Eu tropecei tanto as tontas
Que acabei chegando no fundo de mim
O filme da vida não quer despedida
E me indica: ache a saída
E pede socorro onde a lua
Que encanta o alto do morro
Que gane que nem cachorro
Correndo atrás do momento que foi vivido
Venha de onde vier
Ninguém lembra porque quer
Eu beijo na boca de hoje
As lágrimas de outra mulher
Cinquenta anos são bodas de sangue
Casei com a inconstância e o prazer
Perdôo a todos, não peço desculpas
Foi isso que eu quis viver
Acolho o futuro de braços abertos
Citando Cartola:
- Eu fiz o que pude
Aos cinquenta anos
Insisto na juventude

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A BANDA E A LARANJA

Reza a lenda que, numa noite daquelas, Marinho Chagas estacionou seu Mustang em frente ao Antônio´s, bar carioca onde se reunia a intelectualidade da época. Da turma do Pasquim à da Bossa Nova passando por artistas de outras áreas. Entrou e deu de cara com Chico Buarque de Holanda. Do encontro, deu-se o seguinte diálogo:

Ô de Holanda, canta ‘A Banda’ aí...

- Marinho, só se você fizer umas embaixadinhas...

Conhecido na área, Marinho gritou para o espanhol, dono do bar:

Ô Manolo, traz uma laranja aí!

E na frente de toda aquela gente, Marinho jogou a laranja para cima e, sabe-se lá em que tom o ‘de Holanda’ viu a banda passar...


Mais sobre Marinho Chagas, incluindo a incrível história das caveiras que desciam rolando da ladeira da bosta, na edição de domingo do NOVO JORNAL.

Até!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O CALDO DE OVA E AS HISTÓRIAS DA DONA VERA

Uma amiga já havia cantado a pedra sobre a jóia que era o caldo de ova da cantina do Ednaldo, em Petrópolis. O desejo, guardado por vários dias, era grande. Particularmente para mim seriam duas descobertas: a do boteco e a do próprio tira-gosto. Enfim, saiu. Segunda-feira, final de mais um expediente pesado no jornal, lá fomos atrás do famoso caldinho.

Coisa de 22h. À noite, Petrópolis é um bairro tímido e silencioso. Segunda-feira, então, nem se fala. De esquina, o portão de ferro que dava para a avenida Afonso Pena já estava arriado. Na lateral, duas senhoras com mais de 60 anos ainda empilhavam mesas e cadeiras na tentativa de passar a régua em mais um dia de trabalho.

- Ainda sai um caldinho?

Sai, minha filha. Do que você quer?

- De ova...

Pedido atendido com aquela boa vontade que só quem comanda um botequim de verdade há 35 anos, como a dona Vera Lúcia, tem.

E assim que a primeira Antarctica desceu gelada na garganta, os problemas foram se esvaindo aos poucos em cada gole bem tomado e temperado pelo limãozinho despejado no caldinho de ouro da casa.

Dentro do botequim, a prateleira de madeira velha com poucas garrafas mais vazias que cheias, um tradicional balcão pequeno rachado e as fotografias nas paredes de clientes antigos lembravam que, além de boteco, a cantina do Ednaldo é um ambiente de família.

Mas ainda faltavam as histórias. E em questão de minutos, um cardápio de causos foi servido à mesa pela proprietária do estabelecimento que puxou a cadeira amarela e se empolgou a contar a vida. Dona Vera Lúcia falou dos fregueses mais chatos, de um seresteiro que baixa sempre por ali, da polêmica Nélia, que enche a cara toda vez que vai ao botequim e sai provocando tudo quanto é cliente, lembrou do marido, que se formou advogado com mais de 40 anos e morreu de forma trágica no carnaval de 1984 quando um ônibus atropelou músicos e foliões do bloco ‘Puxa-Saco’ na descida da avenida Rio Branco. E depois de tudo isso, ainda deixou o melhor para o final.

Com a autoridade de mais de 35 anos no ramo, embora o bar no início tenha funcionado como depósito de pão, dona Vera revelou que já recebeu várias propostas de empresários para vender o estabelecimento e negou todas. Contou que ainda fará mais uma reforma nos banheiros e decidiu que vai deixar o ponto, como herança, para os filhos.

Um patrimônio de verdade, digno da instituição chamada botequim.

Vida longa à cantina do Ednaldo!

Até!

quarta-feira, 31 de março de 2010

RESPEITE QUEM PODE CHEGAR AONDE A GENTE CHEGOU



O samba começou a ser vítima de preconceito bem antes daquele tempo em que Don Don deitava e rolava no Andaraí, subúrbio do Rio de Janeiro, como narra a letra magistral de Nei Lopes interpretada por Dudu Nobre. Um preconceito, acima de tudo, social e de classe que, durante anos, evidenciou uma espécie de separação entre negros e brancos.

Ali pelos anos 20 e 30 do século passado, o samba ainda era restrito ao morro e, de fato, só desceu de lá para o asfalto quando a turma da Bossa Nova, que veio bem depois, nos anos 60, deixou a Zona Sul carioca para ouvir Cartola, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e uma porção de outros craques que se apresentavam num sobrado alugado da rua da Carioca, em pleno Centro do Rio. O Zicartola, como o bar era chamado em homenagem à dupla dona Zica e Cartola, que comandava os trabalhos no boteco, foi, sem dúvida, um marco que amenizou esse tal preconceito que taxava de bandido sambista pego na rua com um pandeiro na mão.

Tempos difíceis que volta e meia dão o ar da graça. Um exemplo disso é o processo que um servidor move agora contra o Sindsaúde pelo simples fato do Sindicato contribuir financeiramente com as rodas de samba organizadas pelo grupo Nós do Beco, na primeira sexta-feira de cada mês, na Cidade Alta. O sujeito acusa a entidade de promover bebedeiras com dinheiro dos sócios.

Pagando metade do cachê do grupo e incentivando a presença dos servidores da saúde no samba através de divulgação e distribuição de duas fichas para consumo no bar do Pedrinho, onde acontece a roda, o Sindicato encontrou uma forma de resistir e proteger a cultura brasileira da interferência ditatorial e impositiva dos meios de comunicação comerciais que empurram goela abaixo do público um produto de gosto duvidoso, mas de fácil alcance.

O samba merece respeito por tudo o que passou e conquistou nesses anos de história. É como diz a bela letra de Jorge Aragão: “respeite quem pode chegar aonde a gente chegou!”

segunda-feira, 29 de março de 2010

ARMANDO NOGUEIRA



Por conta da briga com um câncer no cérebro, Armando Nogueira já não atuava na crônica esportiva há algum tempo. Ainda assim, a notícia de sua morte, divulgada hoje pela manhã, no Rio de Janeiro, aos 83 anos de idade, nos lança a uma época na qual uma parcela dos jornalistas eram mitos, e não simples funcionários de jornais.

Natural do Acre, embora tenha feito carreira no Rio, Armando Nogueira não é nem nunca foi uma unanimidade. Foi diretor das Organizações Globo, por exemplo, num período em que a toda poderosa ajudou a camuflar as manifestações em favor da redemocratização do país. Estava lá também quando a empresa de Roberto Marinho tentou, em vão, fraudar a eleição para o Governo do Rio em 1982, conquistada pelo declarado inimigo nº 1 da Rede Globo, o gaúcho Leonel de Moura Brizola.

Durante a apuração, realizada de forma extremamente lenta pela empresa Proconsult, contratada pelo TRE, Brizola e Nogueira chegaram a bater boca. No livro ‘Plin Plin: a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral’, o jornalista Paulo Henrique Amorim destrincha o escândalo e a tentativa da Globo de fazer governador o opositor de Brizola, o ex-deputado e governador do Rio, Moreira Franco.

Noves fora a polêmica passagem pela emissora da família Marinho, Armando Nogueira deitou e rolou como um craque na crônica esportiva. Escrevia como ninguém sobre a peleja dos gramados brasileiros. E, acredito eu, é na grande área que ele gostaria de entrar para a história da imprensa tupiniquim.

Semana passada, inclusive, lembrei aqui na redação do NOVO JORNAL de uma história envolvendo Armando e um de seus grandes amigos, o não menos genial dramaturgo e cronista, Nelson Rodrigues.

A dupla ia ao Maracanã junta e, nas cadeiras, sentavam também um ao lado do outro. Os olhos vidrados no gramado e a cabeça voando com as pernas tortas de Garrincha ou com a serenidade e elegância de Nilton Santos. O problema é que Nelson era míope e não enxergava quase nada do que acontecia no campo. Reza a lenda que nos lances em que a galera se desmanchava em ‘uuuuuhhhhhhhs’, o autor de ‘Vestido de Noiva’ virava para o amigo e dizia sem a menor cerimônia:

- Armando, o que foi mesmo que nós vimos?

Até.