sexta-feira, 15 de abril de 2011

RECORDAR É SOFRER



Até a assinatura da ordem de serviço autorizando a empreiteira OAS a construir a Arena das Dunas, o que deve ocorrer hoje, sobrou polêmica na farra da Copa. Apenas duas licitações efetivamente aconteceram desde o dia 15 de janeiro de 2009, quando o projeto da Arena foi apresentado à Fifa. E ambas só tiveram um único interessado: a que definiu a empresa de consultoria para assessorar a elaboração do edital da PPP (a paulista Valora Participações Ltda. disputou sozinha e levou R$ 4,6 milhões); e a que escolheu a construtora que vai erguer a nova Arena (só a OAS se interessou pelo serviço, orçado em R$ 400 milhões, mas que já se sabe que no final de 20 anos sairá pela bagatela de R$ 1,3 bilhão). Sem licitação, mais de R$ 15 milhões foram gastos pelo Governo do Estado com projetos, incluindo o básico do estádio e as consultorias.

E quem não lembra da primeira visita de vistoria das obras (?) da Copa, quando uma comissão de arquitetos da Fifa não tinha o que ver? O governo abriu licitação duas semanas antes, no valor de R$ 372 mil, para derrubar uma creche, um portão e construir outro no Centro Administrativo. Mas ninguém se interessou pelo serviço. O que aconteceu? O estado convidou para realizar a obra uma empresa que já tinha serviços prestados a órgãos do governo. No dia em que os representantes da Fifa chegaram, em 18 de maio de 2010, a creche foi abaixo e a poeira deu a sensação de que as obras haviam começado. Foi lindo.

Na festa do Mundial de 2014, o Ministério Público também deu o ar da graça. Em setembro de 2009, a promotoria de Justiça do Patrimônio Público questionou o modelo defendido pelo governo para a construção da Arena. Em vez da PPP, a ideia era fazer uma Sociedade de Propostas Específicas, que previa o leilão do terreno valiosíssimo do Centro Administrativo. O MP também torceu o nariz para o edital da PPP, que apontava, entre outras irregularidades, até quem a construtora vencedora deveria contratar para realizar o projeto arquitetônico da Arena. Por duas vezes, teve até recomendação para que o BNDES não autorizasse o financiamento prometido de 75% das obras. Tudo resolvido, bola pra frente.

Mas e os contratos? Como esquecer os contratos básicos e arquitetônicos da Arena das Dunas? Divulgados a primeira vez em junho do ano passado, os valores dos dois juntos chegavam a R$ 27 milhões. Como era começo de campanha eleitoral, o ex-governador Iberê Ferreira de Souza anunciou o cancelamento dos dois, ambos feitos sem licitação. Um mês depois, sabe como é, assim como quem não quer nada, liberou geral mas bateu o pé: só pagava coisa de R$ 8 milhões.

E eu já ia esquecendo o cronograma de obras! Nunca na história dessa cidade se disse e desdisse tantas datas de um calendário só. Eliminemos a pendenga política de São Paulo e me digam uma coisa. Porque, meu Deus, a cidade do sol é a última capital a assinar a ordem de serviço para a construção do estádio da Copa e até hoje me perguntam: “você acha que a Copa vem pra Natal?”

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O NOVO REI NO DIA DA RAINHA




O novo Rei da Gávea inicia seu reinado. Coincidentemente em 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. Que a rainha do mar, então, inspire a trajetória com o manto sagrado do camisa 10 do Mais Querido do Brasil. É dia de festa, embora sem o Maraca, palco maior das consagrações rubro-negras.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O PONTO CEGO DO VASCO

Ainda estamos no início de fevereiro, falta pouco mais de um mês para o carnaval, mas o ex-técnico do Vasco, Paulo César Gusmão, já desponta como o cara-de-pau do ano. Como todo mundo já sabe, o time da cruz de malta não marcou nenhum mísero pontinho no campeonato carioca. Perdeu de três clubes pequenos, além do clássico para o Flamengo. Mas hoje, em entrevista ao jornalista Paulo Vinícius Coelho sobre a demissão dele da nau vascaína, o discípulo de Vanderley Luxemburgo saiu-se com essa:

"A única coisa fora de controle eram os resultados. E isso também porque nós pegamos os três melhores times pequenos do grupo", afirmou.

Três melhores times pequenos, PC?

Tá explicado...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O ABRAÇO QUE ESMAGOU A DITADURA

Dilma Rousseff, a presidenta de todos os brasileiros, está na Argentina cumprindo compromissos oficiais para estreitar relações com os hermanos. Uma visita de praxe como aquelas em que os chefes de nação recém-eleitos fazem geralmente em início de governo. Pose para foto com a presidenta Cristina Kirchner e o discurso de aproximação típico de solenidades envolvendo comandantes de países amigos. Mas a mesmice acaba aí.

A pedido da própria Dilma, o encontro foi além. A ex-guerrilheira e atual comandante em chefe das Forças Armadas do Brasil pediu um encontro com as avós e mães da Praça de Maio, movimentos de mulheres que reivindicam os netos e filhos desaparecidos durante a ditadura militar argentina. Abraçou uma a uma as 24 mulheres que estiveram no encontro.

Dilma ouviu relatos sobre a ditadura argentina e um pedido para que o Brasil abrisse de uma vez os arquivos dos anos de chumbo daqui.

A visita da presidenta de todos os brasileiros a Argentina é histórica. Um encontro de mulheres que resistiram à truculência, à selvageria à tortura física e psicológica. Um momento para ser lembrado e, sobretudo, celebrado.

Hoje, mais do que nunca, brasileiros e argentinos se uniram em memória da própria história.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O ENTERRO DO SEO BEZERRA




Cheguei a guardar distância de velórios e sepultamentos. Os familiares que já foram a oló me perdoem, é coisa minha. Nunca soube, na vera, se tinha a ver com a tristeza, o choro das carolas, o cheiro das flores ou com as próprias lembranças do passado. Meus avós, por exemplo, de quem ainda conservo agudas saudades, partiram sem a última despedida do neto desnaturado. Me penitencio agora mesmo sem mostrar arrependimento.

O cenário só mudou quando o Jornal Nacional anunciou, em 2005, a morte de Bezerra da Silva, sambista pernambucano que cantava o Brasil do jeito dele, cevado no bom humor. Fazia dos dramas e tristezas da vida uma grande piada. Ironia fina, como exigia a malandragem de antigamente.

Para minha surpresa, a reportagem que narrou o sepultamento do ritmista mostrou tudo aquilo que seo Bezerra era em pessoa: alegria. Em vez do choro, o sorriso. No lugar do lamento, uma roda de samba. Na vaga das lágrimas, muita cerveja gelada. De improviso, amigos, fãs e músicos da melhor qualidade se despediram de seo Bezerra do jeito que, provavelmente, o menestrel gostaria que fosse o último dia.

E desde então, paradoxalmente feliz da vida, passei a defender aos amigos mais chegados que, quando chegar a hora, que seja também regada a um bom samba e à cerva estupidamente no ponto.

Passaram-se os anos e o jornalismo, que também entrou para a família como um irmão mais novo, se encarregou de encerrar minha bronca com o funéreo. Por dever do ofício, cobri passeatas em favor de parentes mortos, cortejos, velórios, homenagens póstumas, missas de sétimo dia e enterros. De gente rica e pobre. Da grã-finagem à malandragem. Do Morada da Paz ao cemitério do Bom Pastor.

Semana passada, acabei encerrando os trabalhos da sexta-feira aqui pelas bandas da Ribeira. No roteiro, a tradicional passada pelo Buraco da Catita, casa que reúne chorões, sambistas, gente interessada em música e, principalmente, em gente. De uma hora para outra, um panfleto que passava de mão em mão me remeteu ao bloqueio dos funerais do passado. Falava o papel da quarta edição de um tributo a Bezerra da Silva.

O evento, marcado para dali a alguns instantes, prometia sacudir um beco mal iluminado que serve hoje de mictório extraoficial da Catita. Para entrar, bastava passar por um pano amarrado a um cordão, evidentemente preso ao muro do beco, e pagar cinco pratas. Entramos eu e o amigo Valdir Julião, patrimônio histórico da humanidade e da Tribuna do Norte.

Pouca gente no pagode do seo Bezerra embora a banda se esforçasse para que o preto velho baixasse no mafuá. Não sei se foi a cerveja, mas a noite foi ficando estranha. De uma hora para outra, a malandragem deu um tempo e a segunda banda subiu no palco. Do samba a coisa descambou para o heavy metal. Enterraram seo Bezerra na minha frente. Ninguém sorriu. O trauma voltou.