sábado, 25 de abril de 2009

AS PERIPÉCIAS DE UMA JORNALISTA SINDICAL EM RIO DO FOGO

O Meio da Rua abre espaço, hoje, para um texto muito engraçado da minha sempre Ana Paula. Jornalista das boas, Ana foi sexta-feira cobrir um ato público pelo Sindsaúde na Câmara Municipal de Rio do Fogo, um município situado ali pelos lados do litoral norte potiguar. Observadora nata que é, viu os horrores da política do interior. O texto, por sinal, está no blog entreletrasecenas.blogspot.com que tem outras coisas muito bacanas sempre com a crítica afiada da Ana. Sem mais delongas, com vocês...

MINHAS PERIPÉCIAS EM RIO DO FOGO

Desde a última eleição municipal, em Natal, eu achei que já havia visto os maiores horrores da política. O vereador mais votado é um apresentador de televisão palhaço, que não se comove nem um pouco com a perda de milhares de vidas que ele noticia em seu programa dançando agarrado a uma garrafa de vinho. A bonitinha gostosa, que nos três primeiros meses do ano mal apareceu na Câmara porque, por certo, achou q o veraneio só terminava em março. Isso sem falar na reeleição de vários indiciados pela Operação Impacto, que provou a venda de votos na votação do Plano Diretor de Natal.

Pois bem, já deu pra perceber que parecia que já tinha visto todos os tipos de anomalia política. Mas aí, fui convidada pelo diretor Paulo Martins, do Sindsaúde a cobrir um ato público em Rio do Fogo onde, dizia ele, o prefeito havia demitido 135 servidores concursados do município e, colocou em seu lugar outros, sem concurso público, provavelmente, seus afilhados políticos.

Pois bem, devido à chuva e uma decisão judicial que chegou em cima da hora a manifestação foi desmarcada. Mas ficamos para acompanhar a sessão da Câmara onde seria dada a boa notícia aos servidores.

Os sustos começaram no início da sessão, ao entrar em um galpão, cheio de cadeiras brancas, daquelas de plástico que a gente senta nos bares, e o local de plenária dos vereadores repleta de carteiras, daquelas de colégio, onde os vereadores sentaram em forma de “U”. De certa forma, o susto passou depois da ponderação: realmente o dinheiro público é para ser investido na cidade, em melhorias para a população não em ostentação em Câmaras bonitas, mas....

A sessão foi aberta pelo presidente da casa. Aos poucos descobri que ele era filho do prefeito. Um cara bem apessoado. Diria até bonitão. Não mais que 25 anos. Moreno. Cavanhaque. Brinquinho na orelha. E que dava uma piscadinha para todas as meninas que entravam na Câmara.

O púlpito só foi usado pelo secretário parlamentar para a leitura da Ata da sessão e outros atrasos na leitura da decisão judicial. A Ata, por sinal, não foi aprovada. O engraçado é que o “líder da oposição” um homem com cara de cachaceiro e vermelho, que chega dava medo da pressão dele tá uns 30 X20, não aprovou porque votou contra um projeto aprovado na sessão anterior. Ou seja, ele queria votar de novo. Mas a Ata não é para registrar os acontecimentos da sessão? Enfim, ele convenceu outros três, aos quais ele chamou de “minha bancada” a votar contra. Inclusive uma mulher que havia acabado de chegar e após dar boa tarde a todos disse logo: sou contra.

As enrolações continuaram. Foi lido todo o regimento interno que seria modificado pela Comissão de Constituição e Justiça. Nessa mudança, uma me chamou atenção. A Casa só tinha uma sessão por mês. Na última sexta-feira, às 16 horas. Pois isso irá mudar, chegando a NO MÁXIMO quatro por mês e nas quartas-feiras, às 19 horas. Não é o MÁXIMO? Sem comentários.

Aos pouco descobri outros parentescos. O vice-prefeito, que por sinal é funcionário do Walfredo Gurgel e sócio do Sindsaúde, estava presente na sessão, onde foi acompanhar sua esposa, que é vereadora na cidade. Um dos vereadores da oposição é soldado da polícia militar. Por ironia foi à sessão com a viatura de trabalho. Uma moto da Rocam que ficou todo o tempo estacionada na porta da Câmara.

Enfim, houve outros momentos engraçados como quando um vereador que foi defender um requerimento dizendo que ele deveria ser aprovado por ser muito bom, à La Lady Kate. Mas isso dá pano pra outra história que depois eu conto. Até porque a volta pra casa foi outra aventura....

quarta-feira, 22 de abril de 2009

ANSELMO, O DETALHE DA GUERRA



Numa guerra, a vitória nem sempre está na contagem final dos mortos e feridos. A mesma coisa é numa partida de futebol: nem sempre vai estampada no placar. Às vezes você não vê, mas com certeza sente. Um drible, um lançamento perfeito, um lance qualquer que saia do trivial pode valer o ingresso no campo ou todas as cervejas geladas consumidas no buteco que você escolheu para ver a partida. Se a vitória vier nos números melhor ainda, mas é o que menos importa. Um exemplo fundamental disso tudo é aquele drible antológico do Pelé no goleiro uruguaio pela semifinal da Copa de 70. Não foi gol. Graças aos deuses da bola. Se o Pelé mete aquela bola pra dentro o mundo, hoje, falaria de um golaço e, por isso, tiraria o brilho de um drible simplesmente fantástico. E mais: era o reencontro das duas seleções depois do famoso Maracanazo, em 1950. Os 3 a 1 do placar eram insignificantes perto da monumental jogada do rei Pelé.

No ano 2000, no bi campeonato conquistado pelo Flamengo sobre o Vasco, os cruzmaltinos venceram a taça Guanabara. E de forma humilhante aplicaram um sonoro 5 a 1. No final da partida, Pedrinho, em início de carreira, resolveu fazer graça. Sozinho, sem marcação, levantou a bola e começou a fazer embaixadinhas. A provocação, claro, revoltou os rubro-negros, que partiram para cima do cara. Beto, que mais tarde receberia da própria nação rubro-negra a alcunha de Beto Cachaça por conta da freqüência com que era visto acompanhado da marvada, foi um dos jogadores que precisou ser contido na confusão. Veio o segundo turno, o Flamengo se arrumou, levou a Taça Rio e chegou para a final como coadjuvante. A vingança veio, pois, em doses homeopáticas, e fomos bi campeões cariocas. Na soma dos placares dos dois jogos da final deu Flamengo 5 a 1 (3 a 0 no primeiro, e 2 a 1 no segundo). Mas havia um detalhe: a fatura não estava paga no placar eletrônico. Aos 38 do segundo tempo, sozinho e sem marcação, Beto, aquele mesmo da confusão com o Pedrinho, ergueu a pelota com o pé direito e, com a mesma moeda, devolveu as embaixadinhas para o êxtase e o delírio de milhões de rubro-negros.

Por fim, só para fechar nos três exemplos em homenagem ao tricampeonato que virá lembrei essa semana, vendo o jogo do Palmeiras com o Santos, de uma história incrível que aconteceu na final da Libertadores de 1981, conquistada pelo Flamengo. Naquela época, se as duas partidas da final terminassem empatadas, a nêga vinha no terceiro jogo, marcado em campo neutro. Pois Flamengo e Cobreloa, do Chile, venceram uma partida cada (2 a 1 e 1 a 0). E um terceiro jogo foi marcado para o estádio Centenário, em Montevidéo, no Uruguai. No entanto, além do título, havia outra conta a acertar entre as duas equipes.

Isso porque no jogo da volta, no Chile, o Flamengo foi literalmente caçado em campo. O Cobreloa tinha um zagueiro chamado Mário Soto que jogou toda a partida com uma pedra na mão para acertar os jogadores rubro-negros. Vários atletas voltaram com o rosto riscado para o Brasil. Mas a terceira partida decidiria, enfim, quem levaria o caneco para casa. A vitória veio tranqüila com dois gols do Galinho Zico. Estava liquidada a futura? Ainda não. Faltava um pequeno detalhe. No final da partida, o técnico Paulo César Carpeggiane chama o Anselmo, atacante grande e forte que estava no banco, e lhe dá uma única ordem: pega o Soto.

Nenhum jogador de futebol cumpriu tão bem uma missão em campo como Anselmo naquela partida. Andando, o negão foi ao encontro de Mário Soto e sem dizer uma única palavra aplicou-lhe um murro no meio da fuça. Também sem qualquer outra pretensão na partida, o atacante rubro-negro se dirigiu para fora do campo e nem esperou o cartão vermelho. Confusão instalada, o nosso grande ídolo vingador Anselmo ainda conseguiu a expulsão de outros dois chilenos. Como disse o Ruy Castro, no livro “O Vermelho e o negro – pequena grande história do Flamengo”, foram os melhores 30 segundos de um jogador pelo Flamengo. Desde que ouvi essa história da boca do meu pai, que sempre faz o relato com os olhos brilhando de felicidade, descobri que a vitória é apenas um detalhe numa guerra. Uma guerra que, só o futebol, é capaz de transformar num final feliz. Rubro-negro, é claro.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

TVU ESPORTES: A ÚLTIMA CRÔNICA DE UM REPÓRTER APAIXONADO

Outro dia entrei numa loja da Cidade Alta para comprar um sapato. Olha daqui, escolhe dali, pedi ao funcionário da casa, enfim, o modelo que mais me agradou. Pedido feito, o cara abriu um sorriso e se mandou para pegar no depósito. Dois minutos depois, volta com três modelos diferentes. Calço com o cara me olhando como se já me conhecesse de algum lugar. Decidi levar dois. E o cara me olhando. Na hora de pagar, constrangido, o funcionário resolveu abrir o jogo:

- Você é jornalista?
- Sou.
- Você fazia um programa de esportes na televisão...
- Fazia. O TVU Esportes. Mas saí em 2005, quando me formei. Era um estágio, tive que ir embora.
- Era muito bom. Faz tempo que não vejo o programa, mas acompanhava toda segunda-feira.

Despedi-me do rapaz depois de lhe dar a mesma notícia triste que sou obrigado a confirmar às pessoas que, depois de cinco anos, ainda me abordam na rua para lembrar do saudoso TVU Esportes, programa comandado pelos dois maiores professores de jornalismo que tive na UFRN: Lupércio Luiz e Fernando Amaral. Sem precisar sentar a bunda nas cadeiras da academia, a dupla ensinou muito mais que jornalismo aos estagiários que passaram pelo programa. E não foram poucos ao longo de mais de dez anos de programa.

Prova do sucesso é que de resposta, quando digo que o programa foi extinto da grade da TVU em 2008 sem qualquer satisfação aos milhares de trabalhadores, desempregados, estudantes e aposentados que aguardavam o ponteiro do relógio bater na casa das 19h para acompanhar a mesa redonda religiosamente às segundas-feiras, recebo sempre um sentimento de frustração, decepção, tristeza.

A mediocridade da atual direção da TV Universitária é digna de piedade. Talvez a extinção do TVU Esportes da forma autoritária e desrespeitosa pela atual superintendência explique a importância que a UFRN, ainda mais separada da cidade agora que o reitor decidiu cercar toda a área da universidade, dá ao telespectador comum. Para a academia, o esporte não tem relação alguma com a cultura brasileira. Para essa turma de doutores, o jornalismo esportivo ainda é coisa de palpiteiro.

Entre os programas criados pela Universitária nos últimos anos nenhum deu mais liberdade aos estudantes de jornalismo que o TVU Esportes. Lembro do dia em que propus a Fernando e Lupércio um quadro que fez muito sucesso durante 1 ano e pouco. Era a “Crônica da Semana”, no qual escrevia e lia um texto sobre um fato pitoresco do nosso tão combalido futebol potiguar. A lista de causos absurdos era imensa, o que deu muito pano para manga naqueles tempos. Recebia sugestões, o pessoal comentava na rua. Isso sem falar nas reportagens produzidas e criadas sem censuras. Uma vez, antes do programa ir ao ar, Carlos Henrique, um colega estagiário com quem trabalhei e que, apesar de bancário, ainda hoje se dedica à pesquisa sobre futebol, disse a Fernando que desde pequeno tinha o sonho de trabalhar num programa de esportes na televisão. Um sonho, portanto, realizado.

Um tempo depois que me formei e deixei a UFRN para seguir carreira no Diário de Natal, Lupércio deixou o programa e assumiu a secretaria de esportes em Mossoró. Aí a coisa começou a desandar. Fernando Amaral, que deveria assumir, por justiça, a cabeça da mesa, viu o espaço ser preenchido por um professor que, se Nelson Rodrigues fosse vivo, chamaria de idiota da objetividade. Um cara que ignora a fantasia do torcedor que ouve os jogos com o ouvido grudado num radinho de pilha caindo aos pedaços, para dar vazão aos replays e vídeo - tapes. O programa virou uma sucessão enfadonha de análises numéricas e teóricas e, a partir dali, acabou perdendo a espontaneidade que sempre cativou o torcedor.

Faz tempo que não sou mais estagiário. Me formei jornalista e, talvez por isso, sinto uma saudade absurda dos colegas, dos amigos, da equipe, dos programas, das crônicas, das matérias, das gafes (sim, foram muitas), do contato com o torcedor, das análises que meu pai fazia cada vez que me via na televisão, dos desaforos que ouvia na rua quando criticava ABC ou o América... por isso, prefiro achar que o jogo foi interrompido por conta de uma chuva forte inesperada, mas daqui a pouco o juiz vai mandar o time voltar a campo para seguir o jogo.

No dia em que decidi comprar os sapatos saí da loja carregando, além da compra, uma ruma de lembranças do programa que elevava, há mais de 10 anos, a audiência da TV Universitária. O vendedor nem desconfia, mas foi ali que lembrei também que o campeonato potiguar 2009 marca o primeiro ano do desaparecimento do TVU Esporte da telinha potiguar. De uns tempos para cá apareceram várias mesas-redondas em canais de TV aberta e fechada do RN. Embora não acompanhe nenhuma delas, acredito que todas tenham um pouquinho do pioneirismo do TVU Esporte. Enquanto a direção da TVU não muda sua mentalidade tacanha, os fãs do bom e velho TV Esportes matam a saudade com as lembranças. No meu caso, que acompanhei de perto parte da trajetória do programa, só preciso dar a sorte de comprar um par de sapatos na loja certa.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

BECO VIVO DA LAMA

As regras da eleição para a atual diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA) foram definidas na assembleia geral realizada na noite de ontem, 3 de abril, no auditório do Solar Bela Vista, no Centro. Ficou acertado que a eleição vai rolar dia 1º de maio, no Dia do Trabalho. Vota quem tem o nome no famoso livro preto, reapresentado durante a Assembleia. Isso dá por volta de 300 eleitores. As incrições de chapa acontecem até o dia 29 de abril (dois dias antes da votação).

No entanto, já existem duas chapas em campo: uma encabeçada pelo publicitário Lula Augusto, que traz o editor e sebista Abimael Silva na vice-presidência, e outra com o ex-presidente da Samba, o jornalista, poeta e artista plástico, Eduardo Alexandre, o Dunga. O vice da chapa ainda não sei quem é. O mandato é de 3 anos. Então é isso. Mais pra frente eu escrevo com mais calma e trazendo detalhes dessa eleição que promete muito bate-boca, para dizer o mínimo.

Por enquanto, deixo vocês com a reportagem que fiz no dia da votação da eleição anterior, realizada em 2006, quando o professor de xadrez e matemática, Ubiratan Lemos, venceu o jornalista Alexandro Gurgel. A diferença foi de 72%. Confesso que foi bem divertido fazer a matéria. Espero que vocês se divirtam também.


BECO VIVO DA LAMA

Rafael Duarte - Repórter



Caldo de mocotó, “churrasquinho de gato” e cerveja gelada. Tudo isso no meio da rua com a população desavisada, mas de olho na urna instalada no coração do Beco. Na medida certa para consagrar o novo presidente da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba) - entidade organizada há 14 anos para levantar a imagem de um dos pontos mais tradicionais da cultura boêmia de Natal - na primeira eleição direta da história da comunidade.

O pleito ocorreu sábado passado em frente ao bar Quatro Cantos (antigo bar do Nasi) e “lavou” o Beco. Agora, a responsabilidade pela gestão da Samba, durante os próximos três anos, está nas mãos do professor de xadrez e matemática Ubiratan Lemos, de 43 anos. Ele encabeçou a chapa Beco Vivo e conquistou 72 dos 100 votos válidos. A concorrente liderada pelo jornalista Alex Gurgel, Sempre Samba, teve o apoio de apenas 26 pessoas. Dois sócios anularam o voto.

Ao todo, 322 eleitores estavam aptos a escolher o sucessor do poeta e jornalista Eduardo Alexandre (Dunga), segundo presidente da história da Samba e reconhecido pelo trabalho que fez à frente da entidade. A posse da nova gestão deve ocorrer no dia 17 de maio, durante o II Carnabeco.

PROFESSOR BIRA DIZ QUE GRANDE PROJETO PARA O BECO É SOCIAL

Poeta, comunista, libertário, casado, pai de uma menina e freqüentador do Beco há 18 anos, o “Professor Bira” acredita que a vitória veio pelo empenho dos 38 componentes de chapa. Ele prometeu equilibrar as ações culturais e sociais da região ao lembrar que o carro chefe da campanha, o projeto “Dê uma hora ao Beco”, pretende ocupar a juventude que freqüenta o Beco da Lama e as adjacências, como a praça André de Albuquerque. “Vamos manter e ampliar os projetos culturais desenvolvidos pela gestão passada porque ninguém é doido de fazer o contrário se deu certo. Mas o grande projeto da gente é social. Aqui tem muito jovem abandonado, menino de rua mesmo, sem ter para onde ir.

Acho que temos o dever de mudar isso. E não vai custar nada. Vamos pedir que quando os freqüentadores vierem tomar sua cerveja, que cheguem uma hora mais cedo para orientar, ensinar e passar alguma mensagem para a juventude que cresce aqui. No Beco a gente tem artista, jornalista, advogado, professor... A idéia é fazer uma programação e até remunerar esse pessoal”, explicou.

O plano prevê parcerias com empresas privadas através das leis de incentivo à cultura. “Nosso primeiro contato será com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) para mostrar as idéias e tentar acertar um apoio. A gente tem que ocupar essa garotada. Todo mundo tem que participar”, disse.

Bira conta que seu nome surgiu entre os “amigos de copo” quando a chapa concorrente já havia sido definida. No entanto, o nome de Alex Gurgel não foi digerido pelo grupo, segundo ele, pela ausência do jornalista nos principais eventos realizados no Beco. Na verdade, o Beco da Lama ganhou tanta visibilidade nos últimos anos por conta dos eventos organizados pela Samba com o apoio do Estado, que a eleição teve uma importância ainda maior para a comunidade que freqüenta o local. Prova disso é que em vez de um grupo apontar um nome para administrar a Samba, como ocorria até então, pela primeira vez na história do Beco o pleito foi decidido através de votação direta.

De fato, por atrás do discurso fraterno do vencedor, havia uma declarada disputa de terreno. “Todo mundo das duas chapas se conhece, toma cerveja junto. Mas o Alex é muito recente aqui. Quando ele anunciou a candidatura, vieram me perguntar se a gente ia deixar ele tomar o Beco da gente. No I Carnabeco ele não apareceu, no I Pratodomundo também não veio. Acho que não chegou a vez dele”, disse.

Procurado pela reportagem ainda durante a votação, Gurgel desmentiu o concorrente e criticou algumas propostas da Beco Vivo, como o “Tributo à Che Guevara” que, com a vitória de Bira, deve ocorrer durante esta gestão.

O jornalista centrou suas propostas na área cultural e defendia a construção de uma sede para a entidade. “Essa história de que eu não estava aqui nos eventos é conversa fiada dele. O problema é que eu dou aula no sábado e não posso chegar aqui mais cedo. Agora, eles têm umas propostas que não entendi. Homenagear Che Guevara!? A gente tem tanta gente importante do nosso Estado que poderia ser valorizada, como Newton Navarro, Câmara Cascudo, Auta de Souza... e eles querem fazer um tributo à Guevara!? O Beco tem que valorizar a cultura da terra”.

Mesmo diante das provocações veladas e tão comuns em eleições, a votação ocorreu num clima de harmonia até às 17h, quando a comissão eleitoral divulgou o resultado. Daí para frente não mudou muita coisa. Mais caldo de mocotó, “churrasquinho de gato” e muita cerveja gelada.

A FAUNA DO BECO SÓ CRESCE

Marcos Boi, Ajax Felipe, Zé da Pindoba e Anaxágoras de Lima. Artemilson, Robério “O Coisa” e Biba Thompson. Paulo Zero Grau e Adebal Galego Feio. Assim de supetão, a relação parece a escalação de um time de pelada. Mas estavam todos lá marcando presença. Titulares absolutos da lista de sócios da Samba. Afinados para a escolha do presidente mais popular do Beco.

Ainda que consagrado pelo tempero libertário, o universo do Beco da Lama é democrático. Principalmente quando o assunto é o convívio humano. A rotina da região é feita sem distinção. Da anarquia à direita. Da esquerda ao que sobrou do paraíso. É onde o guardador de carros e o deputado passam para tomar a saideira antes de voltar para casa.

Ponto de encontro de artistas, jornalistas, advogados, professores e autoridades, o Beco, hoje, tem mesa reservada até na Câmara Municipal de Natal, onde cinco vereadores montaram o que a boemia local chama de “bancada do beco”. A idéia é trazer à tona carências como questões de infra-estrutura ligadas ao espaço.

O presidente da Comissão Eleitoral que organizou o pleito de sábado, Plínio Sanderson, contou que o grupo de parlamentares incluiu no orçamento geral deste ano uma verba de R$ 300 mil para a urbanização do Beco. “O Beco hoje está precisando de ajuda. Está sujo, largado nesse aspecto”.

CERVEJA E NOME NA LISTA

Em dia de eleição, regra é regra até no Beco da Lama. É verdade que a boca de urna estava institucionalizada pelo megafone na mesa da comissão eleitoral - usado pelo sócios que quisessem declarar o voto. Mas só votou quem tinha o nome na lista. Ainda assim, alguns “companheiros de copo” desavisados insistiam em participar.

O caso mais curioso foi o de uma senhora meio “alta” com pinta de alemã que se identificou, atropelando as palavras e depois de muita discussão, como artista plástica Josineide Varela, de 63 anos. Ela queria votar de qualquer jeito, mesmo admitindo que não conhecia os candidatos nem as chapas concorrentes.

A cena não chegou a ser um “barraco” (não passou de um bate-boca com o candidato pela chapa Sempre Samba, Alex Gurgel) mas valeu pelo inusitado e para mostrar porque o Beco da Lama é considerado ainda o ponto mais rico da boemia natalense. Eis os “melhores momentos” do diálogo entre Josineide e Alex Gurgel:

Josineide: Eu gosto de chutar (faz o movimento rápido como se levasse o copo à boca) por aqui. Mas onde é que a gente vota?.

Alex: O nome da senhora está na lista?

J: Que lista, meu amigo! Venho aqui todos os dias. Só quero votar... A: Mas a senhora só pode votar se tiver o nome na lista. Se não tem, não vota.

J: Como é que é? Você vai me dizer agora como eu devo fazer, é? Minha mãe morou por aqui a vida toda! Todo mundo me conhece aqui. Vou votar sim.

A: Minha senhora, entenda: é uma regra. Imagine se todo mundo que quisesse votar viesse para cá? Não ia ter condições. Se o prefeito de Natal quisesse votar hoje ele não podia porque o nome dele não está na lista. Me diga porque a senhora votaria?

J: O que é isso, meu amigo!? O prefeito é uma autoridade! Você não pode fazer isso. Vou votar e ainda trouxe dois amigos que vieram da Alemanha para votar também.

A: Minha senhora, não pode! A senhora conhece pelo menos os candidatos que estão participando da eleição?

J: E eu lá quero saber de candidato, meu amigo! Vou votar no melhor. Me diga uma coisa: vocês tem sede?

A: Não.

J: Meu amigo, vocês não têm nem sede e ainda querem me impedir de votar? Como é que pode?

A: Mas se a senhora não sabe nem quem são os candidatos... J: E você lá conhece algum candidato!

A: EU SOU CANDIDATO! Ta vendo? Como é que a senhora quer participar se não sabe de nada?

J: Olha aqui, quero uma cerveja. Não dá para conversar com você sem tomar cerveja.

A: Tem vários bares aqui...(ele aponta para a região) J: (depois de entrar e sair do bar em frente onde a discussão se dava, ela volta provocando) Aqui não tem cerveja. Quero votar.

A: Eu já lhe disse que a senhora não vai votar.

J: Que absurdo! Você sabe porque isso está acontecendo?

A: Porque a senhora não tem o nome na lista...

J: Não! Porque não tem organização! Isso é coisa de brasileiro! O Congresso Nacional só tem safado. Isso o que está acontecendo aqui é uma sacanagem...

A: A senhora está misturando as coisas. Não tem nada a ver uma coisa com outra. Aqui é a eleição da Samba.

J: De quem? Está vendo? Até o nome é uma porcaria (diz o nome Samba com desdém e dança na frente do repórter e do candidato numa cena que lembrava as chanchadas da década de 70).

A: Mas Samba é Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências. Olhe, a senhora não sabe nem o que significa o nome da entidade. Quanto mais votar...

J: Olhe aqui, meu amigo: eu vou me candidatar à vereadora nas próximas eleições e ainda vou ter mais votos que você! Agora eu vou tomar uma cerveja e depois vou votar, você não vai me impedir! (depois de se despedir, ao seu estilo, Josineide vai até à urna e fala alguma coisa para o mesário, que balança a cabeça negativamente. Em seguida, ela resmunga, olha para o lado e entra no bar mais próximo atrás da famigerada cerveja).