quinta-feira, 11 de junho de 2009

A DEDICATÓRIA DO CORNO

O bar de Nazaré, na rua Coronel Cascudo, é um palco de encontros e desencontros indesperados. Como o que aconteceu, no início do mês, minutos antes da segunda reunião da diretoria da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjascências (SAMBA). Antes dos fatos, no entanto, algumas explicações são mais que necessárias.

A primeira vez que tive contato com Fábio di Ojuara foi justamente no estabelecimento da mãe do Paulinho. Passei a vista na parede do buteco, repleto de telas dos artistas plásticos que habitam a Cidade Alta, e parei num quadro (tenho dúvidas se não era um escultura) em que havia um bojo e uma fundamental declaração: "Toda merda agora é arte". Como a obra, nos dois sentidos, me impressionou, guardei o nome do sujeito. Mais tarde, numa reportagem exibida no jornal local da Cabugi, ouvi falar, pela segunda vez, de Ojuara. A diferença é que, agora, o rapaz aparecia representando a Associação de Cornos de Ceará-mirim. Impressionado com o talento do artista para surpreender o público, o nome seguiu martelando minha a cabeça durante um bom tempo.

Ouvindo a conversa de um e de outro pelo Beco, descobri que Ojuara era um corno conhecido na região. Só não sabia, ainda, que o sujeito se gabava da condição que já matou muita gente mundo afora. Portanto, encontrar Fábio Ojuara, na boca da noite do bar de Nazaré, tomando uma Brahma gelada com Abimael e Fábio Athayde, mesmo que por poucos minutos, foi um senhor prenúncio.

Um ser humano simples, como não imaginei que fosse, o corno mais famoso do Beco da Lama. E sedento por divulgar a própria experiência no ramo, digamos, dos chifres. Demonstrando uma sensibilidade só comum aos homens que apresentam dificuldades em atravessar uma porta qualquer, relatou, emocionado, a história da dedicatória que ofereceu à Cristina: alma sebosa que lhe traíra por quase uma década. Segundo Ojuara, antes de descobrir a trairagem, Cristina lhe disse, ao pé do ouvido, em plena escadaria da igreja de Ceará-mirim, que nunca trairia sua confiança, quanto mais o resto das coisas. Após uma confissão quase católica como essa,pensou o sujeito, não havia motivos para duvidar.

O tempo voou e os galhos na cabeça de Ojuara começaram, como o tempo, a pesar demais também. Acabou lançando um livro, "Sabendo usar... chifre não é problema", onde conta algumas histórias, piadas, causos e provérbios. Na dedicatória, a homenagem singela à incurável dor de corno:

- À você, que um dia, jurou nunca me trair.

Como a conversa rendeu ainda boas risadas, em breve contarei a história do "Homem que matou a Geladeira", uma das experiência do mesmo Ojuara que virou até folheto de cordel nos versos do poeta Abaeté.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ANTIGUIDADE É POSTO NO REINO DOS BOTEQUINS




Se ainda há alguma alma viva capaz de confiar num jornalista tão irresponsável por ignorar durante cinco semanas o meio da rua mais humano do espaço virtual, aviso que estou voltando aos poucos. A trabalheira está grande, mas não é desculpa para esse sumiço sem satisfação. Semana passada, fiz uma reportagem bacana sobre o dono de buteco mais antigo do Beco da Lama. Chico é um desses personagens que merecem respeito e destaque. A matéria foi publicada domingo no Diário de Natal. Na página, veio com outro título "Autoridade do Beco da Lama". No Blog, vai o original "Antiguidade é posto no Reino dos Botequins". O fotógrafo do DN, D´Luca, cedeu gentilmente algumas imagens daquela manhã que parecia comum, mas findou num papo de cliente para dono de botequim.


Dono de botequim que se preze tem que negar o fiado, evitar beber na frente da freguesia e, principalmente, ser chato. Daqueles bem abusados mesmo. É assim, convicto, que o ex-soldado do Exército Francisco de Assis leva o barco devagar como o proprietário mais antigo de um boteco no Beco da Lama, região tradicionalmente boêmia do Centro Histórico de Natal. O expediente no bar do Chico segue, religiosamente, o calendário de segunda à sábado. Feriado também é dia de descanso para ele e dona Tica, cozinheira da mão boa que "aguenta" Chico há 26 anos. "A gente briga, mas a gente se ama", diz, rindo, a companheira de trabalho.

Mais antigo proprietário do local, seu Chico encara mais um dia de trabalho no centro histórico de Natal, que continua atraindo boêmios de diferentes classes sociais e regiões da cidade. O velho portão de ferro do boteco levanta por volta das 7h e só vai dormir quando o ponteiro do relógio bate na casa das 20h. Mas nem sempre foi assim. Antigamente, até o início dos anos 90, a madrugada era quem ditava o ritmo. Tempo em que o Beco da Lama tinha "seu" Nasi e dona Odete como expoentes na direção dos botequins da área. Hoje, sem o mesmo glamour, é Chico quem guarda o posto de mais antigo dono de bar da região. "A gente ia até uma da madrugada. ´Seu` Nasi fechava sempre às 21h. Depois disso, os clientes vinham para cá", lembra.



Aos 60 anos de idade, Chico dedicou mais da metade da vida ao ofício de servir, receber, ouvir e reclamar dos clientes. "É um sonho realizado. Sempre tive vontade de abrir um bar. Fiquei no Exército durante seis anos e, quando saí, não tinha emprego. Em três meses, apareceu o bar. Dia 12 de novembro de 1976", conta sentado atrás do balcão.

Chico fala da vida com conhecimento de causa. Há 33 anos no comando do estabelecimento, é um cara realizado, mas admite uma saudade incurável do tempo em que o Centro Histórico de Natal era mais valorizado e a correria diária dos trabalhadores desembocava sempre no Beco da Lama. "Na época do Bandern e do cartório tinha muitos clientes. O problema também é que a cidade cresceu para a Zona Sul e a maioria do pessoal que trabalha no Centro, hoje mora em bairros afastados, como Potilândia, Candelária, Neópolis, Nova Parnamirim. A cidade parou aqui", diz.

Nesse período de mais de três décadas, o Beco da Lama também mudou. E, segundo Chico, para pior. Se antes os fundos das lojas da outra margem da rua, localizadas de frente para os bares, eram abertos, o que facilitava o acesso dos clientes, hoje o comércio virou, literalmente, as costas para o Beco. O dono do bar do Chico é do tempo em que o calçamento da rua era de paralelepípedo. A mudança para o cimentado é a única transformação positiva apontada por ele na área em mais de 30 anos no estabelecimento. "Desde que eu vim para cá ouço falar na revitalização do Beco da Lama e ninguém faz nada. Vejo as pessoas usarem muito o nome do Beco, mas nem as festas estão sendo feitas mais aqui. Agora é tudo nas praças", reclama.

"CHATO POR OPÇÃO"



Chico acredita que se dono de bar não for chato, a clientela "monta". Por isso, não faz questão de ser amável, embora tenha ficado bem à vontade na entrevista. "Tem gente que cospe no salão. Aí não dá. Eu tenho que colocar o limite", frisa. O boteco é pequeno, mas acolhedor. Ao todo, três prateleiras, dois ventiladores, uma televisão e um relógio de parede ornamentam o cenário. Atrás do proprietário fica o aparelho de som. A música que toca vai ao gosto do freguês, isso desde que não haja polêmica sobre a qualidade do disco. Em 33 anos, o bar já passou por três pequenas reformas. A mesinha de fórmica e ferro na cozinha está no mesmo lugar desde o primeiro dia de trabalho. A geladeira, cambaleante e enferrujada, tem 25 anos de botequim. "Essa eu trouxe da casa da minha irmã. Já mandei consertar o motor e repintar algumas vezes", diz, antes de confirmar as especialidades da casa: frango ao molho, guizado e porco.

Indagado sobre o polêmico fiado que baixa sempre nos botecos, Chico lembra que quase foi à falência por conta de alguns fregueses. "Trinquei, mas não quebrei. Fiado é complicado. Uma vez um cara pediu para pendurar as cervejas que ele tomou e foi embora. Eu me levantei, saí para fumar um cigarro e descobri que o mesmo sujeito estava bebendo lá na frente e pagando com dinheiro. Não pode! Antigamente o salário só saía no final do mês, hoje o dinheiro circula mais facilmente. Meus clientes mesmo pagam sempre com dinheiro na hora", afirma.

Apreciador de cerveja gelada, Chico defende que para manter a ordem no boteco, o dono não pode se misturar aos clientes. Mas não discrimina ninguém. Observador e ouvidor do cotidiano que passa todos os dias pelo bar, diz que já viu de tudo e só não consegue entender um único tipo de conversa recorrente nas mesas. "O cara sai do trabalho cheio de problema, vai ao bar, pede uma cerveja e começa a discutir todos os problemas que teve no trabalho. Acho isso ridículo, não dá para entender", encerra.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

A ÚLTIMA PONTA DE HELMUT

Crédito: ORf






Mais um personagem do Beco da Lama pediu a saideira. Helmut Cândido, o filósofo do Beco, pagou a conta sábado à noite, 2 de maio. Era uma das figuras mais excêntricas do Centro Histórico. Andava para tudo quanto é canto a pé com sua inseparável piúba de cigarro. A impressão que dava é de que Helmut fumava sempre a mesma piúba e bebia sempre o mesmo trago de cachaça. Se alguém quisesse encontrá-lo tinha um endereço certo: Sebo Vermelho, do amigo Abimael Silva. O sebista editou os dois únicos livros que Helmut publicou. Um deles falava da época em que o filósofo trabalhava como carteiro e entregava as correspondências na casa de ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. O Carteiro de Cascudo. E assim batizou seu último livro.

De Helmut, guardo algumas lembranças. Numa delas, em plena tarde de semana no bar de Nazaré, destilou com uma voz rouca um repertório de pérolas do ídolo Nelson Gonçalves. Foi aplaudido e ainda ouviu pedidos de bis da comunidade que bebia na grande mesa formada na calçada do buteco. Ano passado, também em Nazaré, me veio com a voz baixinha e um pedaço de guardanapo. No papel, um poema e o valor escrito na hora à mão: R$ 2. Era tudo o que precisava para descer mais um trago de pinga. Paguei e guardei o guardanapo, que deve estar escondido em algum lugar aqui em casa. Quando faltava grana para a birita, o modus operandi era sempre esse: arrumava um guardanapo, escrevia uns versos e tentava trocar por uns trocados.

A terceira lembrança é a mais dolorida. Quando nasceu o Meio da Rua, em outubro de 2008, o encontrei no Beco e disse que queria entrevistá-lo. Ele pensou que fosse para o jornal, ficou empolgado. Expliquei que era para um Blog, na internet. Mesmo assim aceitou. Ficamos de marcar. Às vezes me encontrava em Nazaré e perguntava se não podia ser ali, naquele momento. Eu, desprevenido, disse que estava sem papel e caneta. E ficava adiando a nossa conversa. Chegamos a marcar o encontro, mas o trabalho me fez adiar mais uma vez. Fácil jogar a culpa na rotina diária. Remorso é fogo. Helmut: o filósofo do Beco, o Carteiro de Cascudo. Não importa o que virá na lápide: estará sempre com aquela calça surrada, chinela havaiana e a inseparável piúba de cigarro que fumou até a última ponta.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

NÃO OS LIVRAI DO MAL

Se a sensação de fazer um gol num Maracanã lotado for mesmo semelhante a de um orgasmo, um gol contra numa final de campeonato deve funcionar como aquela brochada na hora H. Um anti-herói o cara que joga contra o próprio patrimônio, eu diria. Mas há casos interessantes. Numa das edições do campeonato carioca de que não me recordo agora, o zagueiro Jorge Luís, que passou, salvo engano, pelos quatro clubes grandes do Rio, conseguiu agradar 100% do Maracanã. Era dia de Fla-Flu e o negão, que jogava pelo tricolor das laranjeiras, abriu o placar para o Flamengo numa cabeçada meio enviesada. Cinco minutos depois, fez as pazes com a torcida e empatou o jogo para o Fluminense. Zerou a falha e vida que segue.

Na história do clássico entre Flamengo e Botafogo, há gols contra que entraram para a história. Lembro de ter escutado pelo rádio uma, até então, vitória tranqüila do Mengão por 3 a 1. Chovia muito no Maraca naquela tarde de domingo. O Flamengo tinha Zico, mas também tinha o Gonçalves, que se tornou um bom zagueiro depois e fez muito mais sucesso jogando pelo Bota.

Pois bem. Deviam faltar uns 15 minutos para acabar a partida quando o distinto Gonçalves se viu pressionado pelo atacante alvinegro e tentou recuar para o Zé Carlos. Digo tentou porque a bola simplesmente encobriu o goleiro e foi morrer no fundo da rede. Empolgado pelo gol ‘‘achado’’, o Botafogo foi para frente e conseguiu, no finzinho, empatar a partida em 3 a 3. Dia desses, vendo uma dessas mesas-redondas na TV fechada, o Gonçalves comentou que, no vestiário, o Zico lhe deu uma bronca que funcionou como uma lição que carregaria para a vida inteira:

- Zagueiro nunca recua bola para o goleiro na direção do gol. Porque se o goleiro tiver uma parada cardíaca na hora a bola, pelo menos, sai em escanteio.

Sábias palavras do Galinho. Mas precisava ter dito só depois da merda feita? Bom, outra vida que segue. Até porque se os botafoguenses ainda lembram com carinho do gol contra do Gonçalves, rubro-negro nenhum no mundo esquece o passe magistral do Márcio Theodoro para o Romário na final da Taça Guanabara, em 1995. Tudo bem que o gol não foi contra, mas teve o mesmo efeito. O Mengo virou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0, levou o empate no segundo tempo e, aos 42 minutos do fim, a bola sobe demais na entrada da área, Márcio Theodoro tenta recuar de cabeça, mas o baixinho Romário chega na frente e fecha a conta em 3 a 2. O zagueirão acabou caindo nas graças da nação rubro-negra que, até hoje, se refere a ele como o nosso eterno Márcio Ti Adoro.

Pois bem. Todo esse preâmbulo aqui foi para lembrar do fenômeno dos gramados brasileiros da atualidade. E olha que não é do Ronaldo que eu estou falando. O nome do cara é Emerson, zagueiro do Botafogo, um predestinado a botar a bola para dentro, mas na rede errada. Não bastasse o gol contra feito na final da Taça Rio, depois do cruzamento do Juan, o sujeito me faz outro na primeira decisão do Estadual.

O engraçado é que, uma hora antes da partida, passei na casa do meu sogro, grande Botafoguense, que me deu o recado:

- Olha, hoje não vai ter a moleza do jogo passado, não. Aquele tal de Emerson não vai jogar!

Bom, como não tinha visto ainda as escalações, acreditei na palavra dele e fui para casa, até para que nada desse errado. Sentei no sofá devidamente municiado de um latão geladíssimo de Brahma Fresh e, de repente, me pinta os times na tela. De cara, o nome confirmado na zaga: Emerson. Lembrei na hora do que disse seo Naílson, mas fiquei na minha. Jogo vai, jogo vem, o Botafogo bem melhor e o Flamengo bem pior que o jogo passado, mas ainda assim equilibrado. Então, aos 39 minutos do segundo tempo, Willians ganha uma bola na raça do zagueiro, dá uma pancada para o meio da área e a bola caprichosamente encontra (quem?) o Emerson. Gol de empate, segundo gol contra do cara em duas partidas. Há quem diga que foi azar, outros vão dizer que foi sorte do Flamengo. Tem também a turma que vai insistir com aquela história de que existem coisas que só acontecem ao Botafogo. Eu, sinceramente, se fosse botafoguense, ficaria com o que meu sogro disse assim ouviu minha voz ao telefone, depois do jogo, num tom que em nada lembrava o cara espirituoso de antes da partida:

- ESSE CARA TEM QUE DESAPARCER DO BOTAFOGO!!!!!!!!

Que Deus e, principalmente, o Ney Franco não escutem essa prece.

Não os livrai do mal,

Amém.