
As derrotas do Santos, também eliminado pelo peso do balofo na mesma Libertadores, e da Seleção Brasileira, outro time que sentiu o poder dos quase 100 quilos da baleia paraguaia nas Eliminatórias, não tiveram 1% da repercussão da lamentável e humilhante derrota.
Típica derrota que não tem volta. Nem se goleássemos o mesmíssimo América do México, com o pesado Cabanãs se arrastando em campo, seríamos vingados. É coisa para daqui até a eternidade.
No Brasileiro do ano passado, outro 3 a 0, dessa vez contra um Atlético Mineiro caindo pelas tabelas e diante de quase 80 mil pessoas. Era 11 de outubro de 2008 e Cartola, tricolor dos bons, completava 100 anos. Dessa vez, os deuses do samba foram impiedosos e mais um 3 a 0, de tristíssimas recordações, aconteceu no maior do mundo. Bruno estava lá, como um dos personagens de mais um filme grotesco rubro-negro.
Na recente semifinal da taça Guanabara, com Bruno e quase todos os jogadores que, junto com ele, vem fazendo parte das páginas mais tenebrosas da história contemporânea do meu Flamengo, outra sapecada de três. Dessa vez, contra o modestíssimo time do Rezende, que até começar o Carioca, para mim era marca de lingüiça.

Pois bem. Esse pequeno histórico tragicômico que vocês leram até aqui me veio a tona assim que Bruno, do alto de sua importância para a história do meu Flamengo, deu de xingar o Andrade, carregador de piano do maior time da história gloriosa e centenária do Clube de Regatas Flamengo. Balbuciou o Bruno, num rachão, que o Andrade não havia ganho nada como técnico de futebol. O Bruno é mais ou menos o que Nelson Rodrigues definiu como o idiota da objetividade. Alguém disse para o goleiro que Andrade nunca foi campeão como técnico e, para ele, que não deve saber cantar nem o hino do Flamengo, foi na onda.

Se não bastasse tanta categoria para o maestro de um meio-campo que tinha o Zico, lá estava o Andrade no primeiro time rubro-negro que me lembro de ter visto jogar. Era 1987, Copa União, e levantamos o quarto caneco brasileiro. Para mim, com 8 anos de idade, começava ali uma história de amor, vitórias, decepções e tragédias. Mas, sem dúvida nenhuma, uma história de amor.
Para calar a boca do Bruno, eu podia terminar por aqui. Já bastava. Mas não. Como essa gente burra, cretina e idiota, há que se concluir o serviço. E é por isso que divido com vocês uma das vitórias mais consagradoras da história do verdadeiro Flamengo. Meu pai, grande rubro-negro e a quem eu devo a honra de amar o manto sagrado, já me contou essa saga várias vezes. Os mais antigos que me lêem agora devem lembrar do mais famoso duelo com o Botafogo.
Num jogo inesquecível para os Botafoguenses, dia 15 de novembro de 1972, o time da estrela solitária enfiou um sonoro 6 a 0 no Flamengo (três em cada tempo), com um show de Jairzinho. A partida valia pelo Campeonato Brasileiro. Meu pai lembra como se fosse hoje:
- Ninguém podia sair na rua depois daquele 6 a 0 porque que aparecia sempre um botafoguense para sacanear. Às vezes não tinha nada a ver com o assunto, mas tinha sempre um para falar: não quero saber, é 6 a 0.
A gozação, no entanto, durou quase uma década.
Isso porque no Campeonato Estadual de 1981, dia 8 de novembro, a vingança veio na conta do chá. Os dois times já haviam disputado duas partidas. A primeira ficou no 0 a 0 e a segunda foi da cachorrada. Faltava um jogo. O Botafogo vinha com o eterno pereba Perivaldo e Jairzinho, como único remanescente daquela fatídico 6 a 0. Aos 7 minutos, Nunes abriu o placar. Zico ampliou aos 27. Lico fez o terceiro aos 33 e Adílio, aos 40 minutos, fechou o primeiro tempo com o Botafogo, literalmente, de quatro em campo.
A essa altura, a Nação, maioria entre os 69 mil torcedores do Maraca, já imaginava a forra. Faltava pouco. O segundo tempo começou com a festa rubro-negra nas arquibancadas, mas gol mesmo só aos 30 minutos com o Galinho. Era a senha. A vingança estava próxima. Mais um. Bola para cá, bola para lá e nada de gol. A galera rubro-negra pedia “mais um!” Mais um!” e “mais um!” num Maraca insandecido. Era agora ou nunca. Até que aos 43 minutos, a bola sobe cruzada na área e a zaga do Botafogo corta mal. Acredito eu que, naquele instante, deva ter acontecido os primeiros três segundos de silêncio da história do futebol. Como um trator, Andrade, esse mesmo que a porra do Bruno (quem é Bruno, meu Deus!?) ofendeu, veio flanando e meteu um balaço no gol do Paulo Sérgio. Não preciso dizer que o estádio Mário Filho, grande rubro-negro que dá nome ao Maior do Mundo, veio abaixo. E, a partir daquele dia, toda vez que um Botafoguense ameaçava abrir a boca, passou a ver duas mãos rubro-negras estendidas simbolizando um histórico e homérico SEIS A ZERO.

Esse é a importância do Andrade e do Bruno para a história do Clube de Regatas Flamengo.
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