sexta-feira, 12 de março de 2010

O PIRATA DO BECO



Foto: Hugo Macêdo

Difícil encontrar uma alma sóbria ou bêbada no Beco da Lama que não conheça a figura extravagante do pirata ambulante Tertuliano Ayres. Proprietário do politicamente incorreto selo Capitão Gancho produções, pelo qual amealha uns bons caraminguás vendendo os legítimos e originais CDs piratas após longas pesquisas na internet, Tertuliano é mais um sujeito boa praça cria da sempre altaneira Cidade Alta. Gastador de sola de sapato, solícito e com mercadoria de primeira, um exímio camelô. Na grande bolsa verde, onde carrega os discos, vai junto também o afiado caderninho, sempre pronto para fazer mais uma vítima. Terto é daqueles vendedores que pechincha antes do freguês. Quando você menos espera, já ganhou um bom desconto além de poder pagar a prazo, só encerrado no dia em que freguês e vendedor se reencontram na mesa de um boteco qualquer do Beco.

Foi assim que, por exemplo, numa tarde dessas, devidamente acomodado no segundo tamborete do balcão azul de Nazaré, minha discografia pirata ganhou mais seis encomendas. Benito de Paula, Jamelão, Noite Ilustrada, Arlindo Cruz, Roberto Ribeiro e Leci Brandão foram parar lá em casa depois de cinco minutos de conversa. A encomenda de mais dois volumes com as musas do samba, que devo capturar qualquer dia desses, provavelmente em Nazaré, entrou para a lista do futuro.

Nesse meio tempo, entre uma olhada e outra no repertório do sebo ambulante, uma revelação. O manda-chuva do Capitão Gancho produções, que aposentou o copo há alguns bons anos, disse que não vende CDs de artistas da casa. Com exceção do disco do Cabrito, personagem que veste (e investe) o intérprete erótico das próprias composições e fazem uivar solteiras, amancebadas e casadas da noite potiguar, o restante dos músicos do RN não entra no repertório ambulante.

É que na visão de Tertuliano, seria constrangedor vender as discografias dos nossos artis-tas num ambiente em que o autor também estivesse vendendo a própria obra. Assim não arruma briga nem confusão e, sem peso na consciência, segue a vida à caça de quem se deleita com as pesquisas que lhe tomam hoje a maior parte do tempo. Coisas de Tertuliano no paraíso do Beco da Lama.

Dito isso, saí do botequim direto para a casa de macumba (vulgo artigos religiosos) que fica ali na esquina do Beco com a rua coronel Cascudo. Pedi um pacote de vela branca e corri para casa. Acendi a primeira em homenagem a Carlos Cachaça, repeti o gesto saudando Noel, Jovelina Pérola Negra, Ataulfo Alves e assim sucessivamente até completar as 12 discografias originais que ainda pretendo encomendar com o pirata do Beco. De pé, com as mãos cerradas, depois de todas as velas brancas acesas, um único pedido:

Por favor, fiquem onde estão...

Um comentário:

Lívia está grávida! disse...

Até eu sempre saio de lá da casa dele com uns volumes a mais. Agora Marquinhos é demais. Vem com uns 10! Há, e que bom que está de volta.