terça-feira, 13 de julho de 2010

O FIM

Sabe fim de novela da Globo? Pois tire o tradicional final feliz. “Ah, mas o Dunga se deu mal e o Brasil não levantou o caneco como vocês previram antes do início da Copa!” dirão os críticos do escrete convocado pelo ‘professor’ Carlos Magno Araújo. Sim, esse cara aí do lado com a mão no queixo é o nosso Dunga.

O que significa que se na sua análise houver um culpado entre nós, pobres boleiros mortais, paus e pedras no técnico, por favor! Ou então eleja o Felipe Melo que mais distribuiu carrinhos e pancadas por estas mal traçadas. Afinal, somos todos brasileiros e estamos na mesma jangada sem rumo na imensidão de gastos da Copa que virá em 2014.

Esqueçamos por enquanto, e só por enquanto, o futuro. Imaginemos, agora, que num passado nem tão distante assim, Deus, para usar uma figura onipresente na seleção evangélica de Dunga abençoada por Jorginho, era mesmo brasileiro. E só por conta disso, antigamente Michel Bastos teria nascido na Espanha e Iniesta chorado, pela primeira vez na vida, num hospital público desse lado de cá do Atlântico.

O nome disso, admito, é inveja. Mas daquelas que não fazem mal ao futebol como fez a bolinha quadrada do time de Ricardo Teixeira. Um sujeito que tem a cara de pau de cobrar renovação na Seleção ocupando o mesmo cargo há 21 anos.

Isso é o que nos espera daqui a quatro anos. O resto é história que a gente conta em 2014. Até lá, muita obra sem licitação vai correr por debaixo da próxima Copa. Olho neles porque o dinheiro é nosso.

Hasta la vista!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

'O AMOR SÓ É BOM SE DOER'

Ah, a saudade. Se a terça-feira desta semana foi feita para relembrar Cazuza, que cantou pra subir há 20 anos, hoje, nesta sexta triste, é dia de tomar aquele gole de uísque pra ficar um pouquinho mais próximo de Vinícius, o poetinha que foi tomar seus porres noutro canto há 30 anos. Desse balcão de madeira virtual, prostrado evidentemente no meio da rua, ergo o copo invisível lembrando o poeta, para quem o melhor amigo do homem sempre foi o uísque, que no dizer dele nada mais é do que o cachorro engarrafado.

De 'Canto de Ossanha', a frase com que disseco esses dias tão doloridos:

"Pergunte ao seu orixá: o amor só é bom se doer"
Vinícius de Moraes

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O FATOR POLVO

Nem eu, que faturei 100 pilas contra a Coréia do Norte e a Costa do Marfim nem o repórter Hugo França, que levou quase 150 caraminguás no muxoxo empate com Portugal. O rei do bolão mundial é o infeliz do polvo alemão, o molusco que segue com 100% de aproveitamento na Copa.

O sacripanta acertou o vencedor de todos os jogos da Alemanha. Vá lá que o grau de dificuldade de quem crava o placar do jogo é maior. Mas não vamos jogar água no chope alemão. Até porque se tem uma coisa que ninguém pode reclamar é a crença alemã no primeiro doido que aparece.

O alemão tem aquela fama de certinho, disciplinado, frio, mas no fundo é tão maluco que o mais pinel do hospital João Machado. Sejamos sinceros: quem, em sã consciência, acreditaria num sujeito recém-chegado de outro país com a idéia maluca na cabeça de exterminar judeus do planeta? Só mesmo a turma do chucrutes que põe fé no poder supremo e premonitório de um bicho que sabe quem vai ganhar um jogo de futebol. E parece que, dessa vez, contaminou o mundo.

Ontem, assim que a Espanha sacramentou a vaga na final, falei com o Alemão. Funcionário da loja de macumba que fica na esquina do Beco da Lama, ganhou o apelido depois que acreditou quando Felipe Melo disse, antes da Copa, que tinha mudado. Alemão estava preocupado. E tinha uma bomba:

- Hômi, o DEM e o PSDB vão à Justiça proibir a participação do polvo nas eleições desse ano.

Por quê?, perguntei.

- É amigo de Lula...

terça-feira, 6 de julho de 2010

PROGRAMA DE ÍNDIO

Alto lá! O título não faz referência alguma ao vice de Serra. Aqui o papo é sério, não é a esculhambação do PSDB. Falo do papudinho mais sem-futuro (dizem as más línguas que é tão sem futuro que está por meia cirrose) da república anárquica do Beco da Lama.

Índio, assim sem sobrenome, tem a mania de hibernar após um porre. Chega a sumir durante uma semana. Ninguém sabe se passando o tempo dormindo o sono dos lisos ou com ressaca moral mesmo. Ontem à tarde, próximo ao bar do Chico, encontrei Índio cambaleante, procurando um rumo.

Remela na cara, cara de sono. Com uma guimba de cigarro apagada no canto da boca, pediu um isqueiro. Disse que não fumava e perguntei de onde vinha:

- Hômi, tomei umas cachaça no primeiro tempo do jogo contra a Holanda no telão da prefeitura que nem vi o resto da partida. Acordei inda agora...

Índio estava em transe. Achava, pelo que rolou na primeira etapa do jogo de sexta-feira, que nem o Mick Jagger era capaz de fazer o Brasil perder aquela barbada. Imaginando mais um feriado nesta terça-feira, perguntou meu palpite para o jogo:

- Rapaz, vai ser duro. Mas sou Uruguai desde pequeno.

Índio me olhou como quem não acreditava. Estrebuchou um palavrão, me chamou de antipatriota e todas aquelas merdas que aprendeu com o Dunga e foi andando. Quando ia virar a esquina, ainda gritou:

- Hômi, pare de beber... assim você endoida. Uruguai é a porra! É Brasil na cabeça. E com um gol de carrinho do Felipe Melo que é pra tu ficar mais puto ainda...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A SAIDEIRA DE LOURIVAL




Lourival cantou para subir. Pediu a saideira na madrugada de hoje por conta de problemas cardíacos. Deixa uma legião de admiradores. Há uns dois meses fiz uma reportagem para o NOVO JORNAL sobre a relação dos donos de butecos com os bares. Fui até lá, mas o comandante estava dormindo e, a entrevista, foi feita com o Júnior, o filho que já dava conta do recado há um bom tempo. Sempre que parava no buteco, perguntava por 'seo Lourival'. Júnior dizia num tom triste que o pai estava bem, mas já bastante cansado. Sempre me recebia com um sorriso no rosto. Era atencioso com todos os clientes.

Embora não seja um freguês assíduo do buteco, guardo uma história inesquecível do estabelecimento batizado de 'Universidade da Deodoro'. Depois de tentar, por oito vezes, uma vaga de repórter estagiário no Diário de Natal, consegui a chance dia 5 de agosto de 2005, dois dias após o meu aniversário. No dia, cheguei a redação mais cedo que o chefe de reportagem, por volta das 7h, mas já depois do velho Machado, o funcionário mais antigo da redação e espécie de 'faz tudo' que se notabilizava por ser o primeiro a chegar e último a sair do jornal. Levei uma fuzilada com o olhar do decano depois de um simples bom dia e aguardei a chefia para a primeira pauta da carreira.

Duas horas mais tarde, fui incumbido de suitar (no jargão jornalístico é o mesmo que repercutir) o aniversário de 1 ano de um buraco de uma rua adjacente à praça do Relógio, no bairro do Alecrim. Por falta de carro, tive que fazer por telefone. Liguei para um ou dois comerciantes. Matéria pronta, dever cumprido. Já passava do meio-dia, fim do expediente. Àquela altura do campeonato, o desejo de comemorar o primeiro dia de trabalho como repórter falava mais alto que qualquer coisa. Liberado pelo chefe, desci a escada da redação, passei pela portaria do jornal e olhei para a esquerda.

O bar do Lourival parecia uma miragem. Tomei o rumo do buteco e sentei na primeira mesa, grudada na parede que faz fronteira hoje com a rádio 96 FM. Num passo curto, um senhor com um sorriso inocente no rosto perguntou o que eu desejava. Pedi uma cerveja bem gelada, me trouxe uma Brahama. Um primeiro gole vitorioso, inesquecível. De volta com a segunda Brahma e mesmo com clientes para atender, puxou conversa. Cheio de orgulho, falei que trabalhava no Diário de Natal. Como se voltasse no tempo, Lourival me contou que o bar já tinha sido muito frequentado pelos jornalistas do jornal, como Sanderson Negreiros, Worden Madruga, Vicente Serejo, Pepe... no fim me deu boas vindas antes de seguir o rumo das outras mesas. A terceira Brahma quem me trouxe foi o Nicó, garçom tão tradicional como o estabelecimento. Paguei a conta feliz da vida e convicto de que, no primeiro dia de repórter, o bar do Lorival era parte da minha história.