- Naquele tempo as piniqueiras ainda eram bestas. Hoje você nem reconhece mais. Antes, não. Quando vinha uma você sabia que era piniqueira. Aí chamava para ver um filme e, depois, ia sarrar por aí. Mudou tudo. Antigamente a noite nas ruas do Centro só andava gato e cachorro. Agora tem muito vagabundo.
Quando pergunto da história de uma galega misteriosa que vendia os bilhetes no cinema Nordeste, ele prova o quão cruel é o tempo:
- Era a Eugênia. Mas ela hoje está só o bagaço.
Depois que deixou o cinema, Pedro nunca mais assistiu a um filme. Nem de faroeste nem de guerra:
- Para quê? Hoje passa tudo na televisão... e eu também não tenho mais paciência, não. Bom era o John Wayne. Gostava também da ‘Noviça Rebelde’, ‘E o vento levou...’, hoje perdeu a graça. Trabalhei dez anos no Cinema Nordeste e nove anos no Rio Grande. Era muito bom. Chegava às 6 horas da manhã e saía às 7 da noite pronto para tomar umas pingas.
O velho Pedro engraxate nunca brincou em serviço. O ponto fixo onde trabalha é prova. Há 19 anos, conseguiu junto à prefeitura a concessão de um caixote de madeira instalado em frente à estátua do ex-presidente dos EUA, John Kennedy. A indicação veio de Antônio, o amigo sapateiro que tomava conta do caixote ao lado. A oportunidade, no entanto, teve um preço. Biriteiro de primeira, Antônio escapava de vez em quando da labuta e deixava Pedro tomando conta do negócio. Veio o primeiro freguês, o segundo, o terceiro e as escapadas do amigo, que a essa altura já tinha virado colega, ficaram cada vez mais freqüentes. Se precisava de uma grana, Pedro sabia a quem e onde recorrer:
- Às vezes ele estava sem dinheiro para tomar uns caroço de pinga e eu dava só para poder tomar conta do ponto e tirar um dinheiro. Tinha dia que ele mesmo pedia. Aí vagou o ponto do lado e ele perguntou se eu não queria trabalhar ali. Fui à prefeitura e, como não tinha ninguém mesmo, eles me deixaram tomando conta.
O caixote do Pedro engraxate fica entre outros dois caixotes, todos azuis. No da esquerda, trabalha um coroa botafoguense. O outro, de Antônio, está vazio desde o dia 12 de março, quando Pedro perdeu o amigo.
Pedro teve se virar entre as perdas e conquistas da vida incerta que assumiu desde que deixou a roça em Caiçara, interior da Paraíba, onde nasceu e trabalhava com o pai, para vir morar em Natal:
- Não queria passar minha vida inteira na roça. Peguei minhas coisas e vim para Natal trabalhar na feira do Alecrim, na barraca de uma tia. Logo depois um primo meu disse que tinha uma vaga de zelador no cinema Rio Grande e fui trabalhar lá.
O velho Pedro engraxate, na verdade, queria mais. E confessa que o que mais conquistou, no Centro que o acolheu, foram amigos. Taxistas, engraxates, sapateiros, comerciantes, ambulantes. É feliz. Ainda que o Centro de que tenha mais saudade seja o do tempo em que as piniqueiras ainda eram bestas. E esse tempo, admite, não volta mais.
4 comentários:
É, Seu Pedro não encontra mais piniqueiras bestas por aí. Por sorte, ainda pode assistir filmes na TV. Com certeza com menos glamour e entusiasmos do que na época das namoradas que ele conquistou no cinema.
Ana: pense num cara namoradeiro esse seo Pedro. Imagino o tanto de piniqueira que ele omitiu da história. Beijo.
VIVA AS PINICAS!!!! :B
Parabéns Rafa!Pelo blog.Show de bola.
bjs
Yasmine
Maravilhas que a vida de repórter nos oferece: tenho uma linda foto do engraxate, e uma matéria das que tenho mais carinho na vida com a galega. Figuras ímpares do folclore urbano potiguar. Muito bom.
Postar um comentário