Desde que a turma do chorinho decidiu abraçar a Ribeira, e deu vida ao Buraco da Catita, as esquinas do Centro Histórico se ressentiram do bom e velho choro do cavaco. O grupo Catita, Choro e Gafieira, que durante mais de um ano conseguiu arrebanhar gente que sequer sonhava em freqüentar o Beco, chegou a mudar três vezes de lugar até descer. Do bar de Nazaré, na Coronel Cascudo, Camilo Lemos e companhia caminharam alguns metros até o bar de Fátima, na Travessa do Tesouro, e terminaram o casamento com o Centro junto a Pedro Catomba, já na Vigário Bartolomeu, até partirem para uma justíssima empreitada própria.
É fato que a saída dos chorões deixou mal acostumadas as esquinas do Centro. Na calçada do bar de Nazaré, uma turma boa até que ensaiou uma roda de samba bacana na boca da noite das sextas-feiras. Mas nada que firmasse uma rotina. Vez ou outra o samba começava apenas para esquentar parte do grupo, que descia logo em seguida para o Buraco, na Ribeira, onde o choro segue comendo solto até a madrugada dar as caras.
Mas a grande notícia desse fim de ano é a volta do samba às sextas-feiras no Centro Histórico. Com direito a cavaquinho, banjo, tantan e um surdo na marcação sob os cuidados da Daniele. Tudo acústico. A roda, comandada pelo grupo Arquivo Vivo dos parceiros Marquinhos e Vinícius, começa por volta das 19h no cruzamento da Rua Coronel Cascudo com a Travessa do Tesouro. O público ainda está se reacostumando com a volta do samba, mas para quem não é chegado a uma muvuca, a roda vai muito bem obrigado. Poucas mesas e um repertório da mais alta categoria. Todas as sextas descem por lá Cartola, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Paulinho da Viola e uma porção de outros bambas de responsa. A cerveja costuma vir geladíssima a R$ 3. O atendimento do buteco também é de primeira, apesar do banheiro não ser assim aquela Brastemp para as mulheres. Mas desce na urina.
Sexta-feira passada quem baixou por lá foi o Jorge Simas, um dos maiores nomes do violão de 7 cordas do país. O cara trabalhou SÓ com Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Moreira da Silva, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Roberto Ribeiro e quem mais você imaginar. Chegou de mansinho e ia passar despercebido quando foi reconhecido pelos músicos. Cumprimentou a rapaziada, posou para fotos... tudo na maior simplicidade, como pede um samba de raiz.
Num outro dia samba, o partido comia alto quando um gari, em pleno ofício, parou para ouvir o samba. Parou é modo de dizer. O cara simplesmente incorporou o batuque da roda e deu um show na Travessa do Tesouro.
Por falar em Travessa, o nome da rua foi motivo de debate semana passada. O portão de ferro do buteco já tinha arriado pela metade quando o Vinícius, do banjo, veio pedir uma sugestão a mim, Ana e Armando, os últimos heróis da noite, sobre um nome para o local que virasse referência para a roda de samba do Arquivo Vivo. Lembrei que aquele trecho era conhecido como Travessa do Tesouro. De pronto, o Bené, pai do Vinícius, que parece afeito a uma polêmica, disse que nunca tinha ouvido falar nisso em 40 anos de Centro. Mantive a informação mesmo prometendo checá-la com quem entende do riscado. Se estiver certo, voto na “Roda de Samba da Travessa do Tesouro”. Se o Bené ganhar, também não saio por baixo. Direi sem culpa nenhuma no cartório: vida longa a TRAVESSA DO SAMBA.
6 comentários:
Muito bom!!! Aliás, como sempre.
Viva a Travessa do Samba!
Boa Rafa! Bela história, pra variar!
E vamos aí fazendo a nossa parte, batendo o ponto na roda de samba, sempre!
Gostei de Travessa do Samba, prefiro até que Travessa do Tesouro. Vamos apresentar a proposta aos meninos da roda que acho que esse nome vai pegar!
Oi, fiquei emocionadícima lendo seu texto, tb adorei a "Travessa do Samba"....
Marque na agente sexta-feira é dia de samba na TRAVESSA DO SAMBA....
"Roda de Samba da Travessa do Tesouro" para nome de enredo de escola de samba. Grande demais, homi! É igual a Maria Fernanda Cândido (a atriz), ou Marcos Antônio Boiadeiro (jogador, lembra?). Presta não.
P.S: Vou roubar a foto. Aquele galeguinho na mesa saiu mei bebo naquele dia, ainda com parada no Bardallos.
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