segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Driblei um defunto e caí num buraco

Conhecido pela atuação humanitária em favor dos pobres e, principalmente, dos perseguidos políticos na época da ditadura militar, o arcebispo de Olinda Dom Helder Câmara morreu em 1999. Quando iniciei no jornalismo, dia 5 de agosto de 2004, conhecia pouco da biografia do santo padre pernambucano, mas o suficiente para saber que ele não estava mais entre nós. O problema é que, numa redação de jornal, não existe verdade absoluta. Ainda mais quando se está começando. E principalmente quando é o seu primeiro dia como estagiário num jornal da dita grande imprensa potiguar, no caso o Diário de Natal. Logo, qual não foi minha surpresa quando o chefe de reportagem do DN na época, Marcos Ramos, iniciou o seguinte diálogo:

- Você é católico?
Sou, mas não pratico.
- Ah, pelo menos você não é crente. Acho que você é o repórter ideal.
Para quê?, respondi já imaginando que faria a matéria do ano no primeiro dia de trabalho.
- Amanhã você vai entrevistar Dom Helder Câmara.


Aquilo, para mim, caiu como uma bomba. Mas fui em frente sem entender.


- Como?, questionei num misto de incerteza e espanto.
Dom Helder Câmara, o arcebispo, não conhece?
- Conheço.
Então depois procure a biografia dele na internet para você saber quem é. Temos que checar a hora que ele chega.


A essa altura eu já duvidava de tudo o que eu tinha aprendido na faculdade de jornalismo e, principalmente, já dava o velho quase como ressuscitado.

Respirei fundo e imaginei, óbvio, que se tratava de alguma pegadinha do chefe com o estagiário, daquelas que a gente conhece só das histórias contadas por jornalistas mais velhos. Estava na cara: o chefe de reportagem queria me sacanear. Enquanto eu estivesse lendo a biografia resumida de Dom Helder Câmara na internet ele estaria se mijando de tanto rir do trote em cima do otário aqui.

(Aqui, uma pausa. Quando entrei no jornal, a redação do Diário era escura, os móveis antigos e os computadores, provavelmente, eram os primeiros da era pós-maquina de escrever).

Vamos em frente. Vendo Marcos Ramos de um lado para o outro da redação, resolvi abordá-lo novamente. Fingi que esqueci o nome do entrevistado e retomei diálogo:

- Marcos, qual é o nome do arcebispo que eu vou entrevistar, mesmo?
- Dom Helder Câmara, ele repetiu para o meu desespero.


Continuei suando frio:

- Você tem certeza que é Dom Helder Câmara?

A essa altura do campeonato eu já estava com medo de dizer que o velho tinha morrido e ouvir que eu não sabia de nada e, por isso, não serviria para trabalhar em redação. Até que, sabe-se lá como e por onde, entrou um pouco de luz na redação do velho DN e a polêmica acabou quando Marcos Ramos arrancou a pauta da minha mão.

- Peraí, Helder Câmara não! Você vai entrevistar o Dom Eugênio Sales, porra! É o arcebisto de Natal, que está vindo do Rio de Janeiro. Dom Helder Câmara já morreu, cara!

Ele disse tudo isso rindo como se eu não soubesse do acontecido. Me deu dois tapinhas nos ombros antes de dizer que meu expediente já havia terminado.

Respirei aliviado, tomei três Brahmas no bar do Lourival, e fui para casa vasculhar a vida de Dom Eugênio Sales na internet. Voltei no dia seguinte afiado e empolgado com a entrevista. Minha alegria acabou quando recebi a pauta. A entrevista havia sido repassada para a repórter Flávia Urbano, na época repórter de Cidades. Para mim, sobrou uma grande notícia: continuar, por telefone, a matéria da minha amiga Sheyla Azevedo que participou, no dia anterior, das comemorações pelo aniversário de 1 ano de um buraco aberto próximo a praça do Relógio, no Alecrim.

Para quem ia entrevistar um defunto, cair num buraco foi um grande começo.

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