segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

'Samba é canção de guerra'



Khrystal está preparada para a guerra. A diferença, agora, é que no lugar do fuzil ela bate um pandeiro. Em vez do canhão, a percussão é que manda bala. A baioneta dá lugar ao bandolim e o pipoco do treme-terra deixa qualquer bombinha com cara de traque. Pergunte à nêga o que danado é o samba e ouça na bucha: 'O samba é canção de guerra'.

Pague para ver. A partir da próxima sexta-feira, e em todas as sextas seguintes até o carnaval, essa guerra toda descamba no Espaço Cultural Dosol, ali na Ribeira, aquele charmoso bairro velho de Guerra.

Com o show 'Do Jeito Que A Vida Quer', marcado pontualmente para começar sempre à meia-noite depois da discotecagem exclusivamente brasileira do projeto Barulhinho Bom, Khrystal reverencia o samba. E com o samba, toda a influência brasileira dessa intérprete potiguar elogiada por críticos tarimbados do naipe de Sérgio Cabral e Tarik de Souza estará no espetáculo.

Em 2012, Khrystal trocou os tradicionais shows de carnaval que costumava fazer por um repertório exclusivo de samba. Nele, a intérprete canta o Brasil. Pague pra ver e ouvir. O ingresso é apenas 10 pratas. Abaixo, um papo reto sobre o show. Khrystal está preparada para a guerra, a guerra do Brasil. E ai de quem estiver na linha de tiro.


Você lembra qual foi a primeira vez que teve contato com o samba?
Foi em casa,quando criança. Meu pai toca violão lindamente e canta assustadoramente. Dorival Caimmy, Adoniran Barbosa, Raimundo Olavo (potiguar)... tudo isso e muito mais rolava na minha casa. Minha família é muito ligada à música e a relação deles com ela é que desembocou na minha. O samba está nisso, completamente.

Qual foi o samba que escutou pela primeira vez, consegue lembrar?
O samba que ouvi pela primeira vez foi "Saudade da Bahia" de Caimmy, com Saraiva, meu Pai.

O samba te inspira ou qualquer música te inspira? O fato de ser brasileira e o samba ser uma cria brasileira com todas aquelas influências que temos da África mexe com você de alguma forma?
Mexe. Mas qualquer música me inspira. Só precisa ser boa. Acredito que todo cantor(a) brasileiro tem sua hora com o samba. Se não começa por ele, uma hora chega, sabe? De alguma maneira, isso se dá. Falando de mim, sou rítmica e intuitiva, não tem jeito. E o samba atende essa minha pré-disposição,como o côco atende... enfim, essas coisas que vem do negro, muito apimentadas, sempre tiram boas coisas de mim, no palco, sabe?

É a segunda vez que você prepara um show apenas com sambas, certo? Qual é a diferença daquele show com o Canteiros e este agora?
É a segunda vez, sim. A diferença do primeiro show pra esse, fundamentalmente é a formação da banda. Com o canteiro, a formacão era algo mais puxado para o clássico, com uma meia-lua de músicos, tinha violão, sete cordas e os instrumentos tradicionais, todos. Experiência linda! E o repertório. Algumas poucas coisas eu trouxe do outro pra esse.

'Do jeito que a vida quer' é um verso do Benito de Paula. Ele faz um tipo de samba que você gosta ou o nome do show tem a ver mais com a força da frase? O que a frase diz pra você?
Esse samba de Benito me traz uma memória de crianca que eu adoro,na casa minha Vó,em Lagoa Seca. Uma tia minha, tinha uma vitrolinha laranja, uma graça, que só tocava Benito di Paula. O tipo de Samba que ele faz tem um poder de comunicação que eu gosto. Mas confesso que o que toca no meu som é mais ligado a mistura, sabe? Gosto de ouvir artistas que trabalham a partir dele e não só dele =). Do jeito que a vida quer é uma frase leve, pedindo talvez para que não levemos tudo isso (a vida) tão a sério assim... rs

Que compositores você escolheu para fazer esse show?
Sempre escolho primeiro a canção, depois vejo de quem é...rs Quando Perú (Carlos Peru, cuíca e pesquisador do repertório do show) me entregou o disco para a pesquisa desse show, ele me recomendou: 'Ouça como quem tá experimentando óculos... rapidinho, separe os melhores modelos', e foi exatamente o que fiz. Quando vi aquele bolo de canções agrupadas é que fui me aperceber dos autores. No menu, temos Tom Zé, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, João Nogueira, Gonzaguinha, Moraes Moreira, Martinho da Vila e mais um tanto. Nada mal,né? kkkk

Que sambas, logo de cara, você viu que não poderiam faltar?
Vou te responder isso, baseada na primeira temporada: O canto das Três Raças e Zé do Caroço.

No Coisa de Preto você não gravou só figurão, colocou compositores então desconhecidos do público. No show de samba vai pescar gente que anda fora da mídia também? Quem?
Basicamente eu mesma hahahahahahahahaha É egraçado por que hoje em dia, as pessoas frequentam shows de música para ouvir o que já conhecem. Parece que perdemos a capacidade de reaprender a ouvir, no sentido de estar aberto a conhecer algo novo.
Coloquei dois ou três sambas meus, mas não entrou "porque é meu" entrou porque tem a ver com o show. Esse show não deixa de ser autoral, porque tem pesquisa e isso sempre deságua em "novidade". Tem samba de 1950 por exemplo, foi chocante pra mim. Mas tem as horas de cantar junto, sim sim sim!!! \0/

Você quer passar alguma mensagem, quer dizer alguma coisa ao público com o show?
Olha, sempre que subo no palco e canto, estou discutindo meu País. Entrou um samba-enredo de 1988(Disputa de Poder) que fala de um Brasil que está aqui, agora. E dentro disso, os temas são variados: comportamento, amor, crença, negritude, trabalho... isso tudo é bom de falar,no palco principalmente. Acho engraçado que nada disso é consciente. Quando vou olhar depois, os temas estão lá. Então, vamos nessa. Samba é canção de guerra. Mas a mensagem do show é provocativa sem ser dura.

A Khrystal 2012 vai ser do jeito que a vida quer ou a vida em 2012 será do jeito que a Khrystal quiser?
Opção dois. Se tu deixa, a vida vai indo sozinha. Isso pode ser bom, mas pode não ser. É bom estar atento e pronto. Eu tô nessa.

Porque o carnaval deste ano vai dar samba?
O carnaval passa muito longe da minha carreira. Uma temporada de samba, não.
Preciso de coerência e sei que não sou uma cantora de baile. No mais, é muito elogio aquele tipo de show e nenhum contrato. Passo o meu reveillon em casa, por exemplo. Cadê o show de carnaval? Os elogios? Não é tão bom? Carnaval é só quatro dias mesmo. Meu trabalho é o ano todo e dentro dele é que arrisco tudo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

(A) FINADOS do Samba - A história




Foi, como não poderia de ser, na mesa de um buteco. Estávamos eu e meu irmão Anderson Barbosa domingo passado assistindo na TV ao chocolate que o nosso Mengo levava do Grêmio, uma autêntica tarde de Finados. De supetão, lanço a ideia: bora fazer uma roda de samba homenageando os sambistas que já partiram? Bora, respondeu o moleque sem tirar o cigarro da boca. Ok, segui adiante. Então vai se chamar O Samba do Crioulo Morto.

Para meu espanto, Anderson, o correio da má notícia do Novo Jornal, achou pesado o nome. Logo ele! Mas insisti. Saí do bar depois do jogo. Ele pegou o rumo de casa com medo que estava de apanhar da mulher quando chegasse. Passei na casa do Rudson e da Milena, eles adoraram o nome, deram a maior força.

Para fechar à noite, já passava das 21h, ainda faltava a palavra do meu guru Eugênio Meio Quilo. Mas o malandro não estava em casa. Descobri por conta dessa invenção chamada telefone que o cabra bebia com Cris na casa de Yasmine e Ivan. Rumei pra lá. Ele também se amarrou em 'O Samba do Crioulo Morto', mas Yasmine achou pesado. Argumentou que aqui não se comemora os mortos, mas o Dia de Finados.

Diante disso, e depois de várias cervejas, nasceu, em estado bruto, a roda de samba que acontece nesta quarta-feira, Dia de Finados, a partir das 14h, no Bardallos (Rua Gonçalves Lêdo, 678, Cidade Alta). O Nós do Beco e o Arquivo Vivo toparam na hora.

Mas o que também torna ainda mais valorizada essa grande festa é o apoio dos parceiros que, em um dia e meio, conseguimos pescar. Sindicato dos Bancários, Sindsaúde-RN, Sinsenat, deputado Fernando Mineiro e vereador George Câmara. Valeu pelo apoio e a confiança!

A cerveja já está gelada e o samba na ponta da língua. Pra ficar melhor só falta você aparecer! Até porque beber o defunto é não deixar o samba morrer.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

(A) FINADOS do Samba

Se você morre de amores pelo samba a data é irresistível. Vamos celebrar os bambas que permanecem vivinhos da silva na memória e no coração da Música Popular Brasileira. Nesta quarta-feira, 2 de novembro, o Bardallo´s abre as portas em pleno feriado de Finados para homenagear quem foi oló em carne e osso. Os grupos Arquivo Vivo e Nós do Beco se encarregam das honras.

O furdunço batizado carinhosamente pela assistência de (A) FINADOS do Samba começa a partir das 13h30 com Lula e Ricardo commandando o buteco. Cerveja gelada é serventia da casa. O Badallo´s fica na rua Gonçalves Lêdo, na Cidade Alta, adjacência do tradicional e boêmio Beco da Lama. O evento é uma produção da Folha Seca e tem o apoio dos sindicatos dos Bancários, Sindsaúde-RN e Sinsenat-RN.

No repertório desse samba do crioulo ‘morto’ só vale relembrar a turma que já cantou para subir e por aqui deixou saudade. Salve Cartola, Candeia e Nelson Cavaquinho. Salve Roberto Ribeiro, Carlos Cachaça e Sinhô. Salve Paulo da Portela, Noel Rosa e Silas de Oliveira. Salve Luiz Carlos da Vila, Ismael Silva e Donga. Salve Clara Nunes, Elis Regina e João Nogueira. Salve o samba, salve a santa, salve ela. Salve os bambas que baixaram aqui na Terra.

(A) FINADO do Samba - Porque beber o defunto é não deixar o samba morrer!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A imprensa e a Copa: estupra, mas não mata

A história diz que o Brasil foi colonizado pelos portugueses. Do mar, a bordo daquelas caravelas enormes, os descendentes de Maria enxergaram uma terra, desceram na praia, encontraram um povo, hipnotizaram os caras, comeram as mulheres, cercaram os terrenos e tomaram conta de tudo.

Simples assim. Como se aqui não existisse ninguém. Ou melhor, como se os que moravam aqui vivessem sob as leis de fora e a porção de terra invadida fosse tão somente uma extensão da casa do Manoel.

Para cá, também contam os livros, o rei de lá mandou toda qualidade de gente. De uma tacada só fez um rapa na família e na cadeia. E ganhamos de brinde uma rainha doida de pedra, bandidos perigosos e ladrões de galinha. Não é nada, não é nada, pode vir daí a raiz do porquê ‘dorme a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que é subtraída em tenebrosas transações’.

Pela cronologia histórica, mais de 500 anos foram para o saco. Mas o óbvio ululante é que nada de fato mudou. Esse mesmo Brasil que já foi dos índios e de Portugal, que já foi Império até virar República; essa terra que já dormiu duas vezes com a ditadura e acordou um dia ao lado da democracia; esse país que canta de galo porque é do futebol está sendo entregue, em papel de presente, a Fifa.

As privatizações ensaiadas por Collor, efetivadas por Fernando Henrique e ratificadas por Lula e Dilma Rousseff (apud aeroporto internacional de São Gonçalo do Amarante) são café pequeno perto do comportamento do governo para receber a festa da Copa por um mês.

Todos os 12 estádios já estão mais caros do que o prometido. Monstros serão erguidos onde não há sequer tradição de futebol. O Palmeiras, por exemplo, está construindo uma arena própria com verba 100% privada que vai custar mais barato que todos os estádios para a Copa onde a verba pública está rolando solta.

Os governos federal, estadual e municipal vendem a ilusão de que estamos fazendo um evento para, enfim, construir o Brasil, quando o mínimo de planejamento nos orienta a terminar a casa para poder receber qualquer festa.

Não satisfeita, além da farra, e para delírio da imprensa que torce e, por isso, distorce ou esconde a maioria das informações, a Fifa quer mandar também na casa. E tal qual fizeram os portugueses quando cá estiveram pela primeira vez, enxergou uma terra, desceu na praia, encontrou um povo, hipnotizou os caras, comeu as mulheres, começou a cercar os terrenos e vai tomando conta de tudo.

Depois da Fifa e do presidente da CBF Ricardo Teixeira, agora é o ministro dos Esportes Orlando Silva quem se vê na obrigação de dar explicações sobre corrupção no governo. A relação da Fifa com o Brasil é um caso clássico de estupro. Uma violência política, um atentado à autonomia do país. A imprensa festiva aplaude para garantir o ingresso e não perder nenhum lance. É cúmplice e hipócrita. Estupra, mas não mata. É da jogada ensaiada que sai o gol.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Arquivo Vivo volta ao Beco do Samba

A Quinta Viva do Samba volta hoje ao berço de origem. O grupo Arquivo Vivo retoma os trabalhos a partir das 19h no bar de Nazaré, no Beco da Lama (rua Coronel Cascudo, por trás da Assembleia Legislativa). Promessa de uma noite memorável, até pela oficialidade da reinauguração do botequim.

A pausa, que levou o grupo ao mafuá do Tom Maior por quatro longas semanas, foi provocada pela reforma no buteco concluída agora por Nazaré, dona do estabelecimento que já vai ao sabor dos 15 anos. Eu já cheguei por lá e, embora não tenha gostado daquela tinta verde na parede, aprovei a mudança.

Principalmente com as boas vindas do banheiro feminino, o que era uma reivindicação da assistência há vários porres. A cozinha também ficou bacana. O laranja do muro que separava Tázia do balcão ficou branquinho da silva. O botequim parece até que aumentou de tamanho.

O convite está feito. E ainda tem promoção à vista. Os 100 primeiros que disserem à Nazaré que viram a notícia da reinauguração do buteco no Blog, só pagam 4 REAIS pela cerveja! Tudo, claro, em nome do samba.

Aquele abraço.