A relação de Lula Belmont e Ricardo, a dupla que comanda o Bardallo´s, com a turma que freqüenta o buteco é digna de registro. Apesar de ser tratado muitíssimo bem todas as vezes que compareço ao estabelecimento da Rua Gonçalves Lêdo, há sempre alguém nas imediações do Beco da Lama para reclamar de alguma coisa. Na lista, a grosseria ganha disparado. A verdade é que as respostas atravessadas de Lula e Ricardo para os fregueses já fazem parte da história do buteco. É como se viesse no cardápio. E todo mundo sabe disso.
O bom é que no meio dessas arengas nascem histórias geniais, como a que me foi narrada pelo Fábio Athaíde, agora avô, numa dessas tardes de cerveja gelada no bar de Nazaré. Fábio conta que decidiu pegar o rumo do Bardallo´s na boca da noite de um dia qualquer. Foi direto ao balcão. Já notando o humor enviezado de Lula, também cerrou a cara antes de pedir uma dose de cachaça. Copo na mesa, aquele clima constrangedor no ar, pediu uma rodela de limão para ajudar a descida quando ouviu o sermão:
- Limão!? Você quer caipirinha, é? Se for caipirinha é mais caro, viu?
Como todo freguês que leva uma dessa, Fábio disse que nunca mais colocaria os pés no buteco. A promessa, claro, não foi cumprida. É assim que a vida segue no Bardallo´s. Até Lula tocar o sino e botar todo mundo para correr.
sábado, 13 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
MEU GARÇOM

No dia em que meu copo secar de vez, espero ser recebido por um garçom. No céu, no inferno ou em qualquer outro buraco para onde meus pecados me levarem. Nada de São Pedro ou um desses anjinhos são-paulinos tradicionais. Tem que ser um garçom de respeito. Vestido de branco, mas sem aquela miserável gravatinha borboleta. Tem que ser garçom de botequim. Caneta bic na orelha, gola amarrotada e um pique de fazer inveja a qualquer corredor da São Silvestre. Não precisa nem ser homem. Detalhe infame. Garçom não tem sexo. E discutir o sexo dos garçons deve ser aquela velha lenga-lenga de sempre. Há outro detalhe fundamental: além do garçom, aquele lance de harpas e trombetas também está fora de cogitação. Tem que ter samba. Cartola ou Noel, de preferência.
O garçom que pintar na área também deve me levar para a mesa certa. Sendo um garçom de respeito, como sei que será, saberá o que fazer. Sendo a primeira vez no buteco, uma mesa distante, com uma única cadeira, encostada na parede e de frente para o ventilador é suficiente. Nem tão perto, nem tão longe do banheiro. Coisa simples. Até porque a última coisa que quero é ser reconhecido por algum sujeito que insista em sentar à mesa para me dar as boas vindas.
Meu garçom deve vir com a presteza e a memória do Valdenir, que me conheceu ainda pelas bandas da Con Xin China e se apresentou já no Cais 43, dois ou três anos mais tarde. Um garçom que me dê a liberdade de reclamar da conta que veio alta demais e, da próxima vez que eu voltar, tenha a delicadeza - que só os grandes seres humanos têm - de reconhecer o erro e dizer que, realmente, eu e Ana tomamos 38 e não 39 chopes naquela tarde única.
Mas o meu garçom também virá – e eu sei que virá – com a pureza da Dinda, garçonete do buteco da Tia Deja, no Mercado de Petrópolis, que depois de uma tarde de samba dessas que lavam a alma, ainda pagou do próprio bolso três saideiras pelo prato de paçoca que veio a mais na conta que a proprietária do estabelecimento fez questão de cobrar.
Imprescindível também é que meu garçom se chame Naldo. Disso eu não abro mão. Naldo como o garçom que conheci esse fim de semana na praia de Pipa. Uma figura que desafia a natureza quando atravessa um pedaço do mar com água no peito para levar e trazer, do bar até a areia, os pedidos dos turistas.
Meu garçom, mesmo cansado e assado pelo contato da água salgada com a virilha, deve resistir como o Naldo de Pipa resiste até chegar em casa, momento em que senta no sofá e, como o ser humano único que é, olha para mulher e pede uma cerveja gelada antes de apagar na poltrona ignorando, inclusive, o boa noite do Willian Bonner.
No dia em que meu copo secar de vez, quero ser recebido por um desses garçons de verdade. Desses que a gente encontra no meio da rua. E quando o portão de ferro baixar de vez e meu garçom já não tiver mais nenhum cliente para atender, eu possa dizer feliz da vida:
- Agora é por minha conta.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
UMA NOITE DE CÃO NO BAR DO RICARDO

Depois de uma reunião de trabalho EXTREMAMENTE estressante nosso fim de noite não merecia outro destino senão o bar do Ricardo, ali quase na esquina da Ulisses Caldas com a finada avenida Junqueira Ayres (hoje Câmara Cascudo). E digo isso porque o bar do Ricardo, desde que chegamos de mala e cuia ao Centro Histórico, virou nossa segunda casa. Por uma razão muito simples: o carinho com que Ricardo, Cris e Léo - a família que comanda o boteco - tem dispensado a mim e a Ana desde que comemoramos a primeira das inesquecíveis vitórias do MENGÃO, na arrancada da Zona de Rebaixamento à Libertadores, em 2007. Mas isso é outra história.
O assunto aqui é outro. Falo do clima e da relação que fazem do bar do Ricardo um autêntico botequim no Centro Histórico da cidade. Naquela noite de segunda-feira, quando nada parecia capaz de desanuviar o ambiente pesado que ficou lá em casa, a intimidade que nasceu de nossa relação com o dono do bar - e que só existem em botecos de verdade - nos devolveu parte da alegria roubada horas antes da famigerada reunião.
Com a conta paga e devidamente municiados de mais três cervejas, que derrubamos assim que chegamos em casa, Ana me contou essa história deliciosa que ocorreu quando fui ao banheiro e só acontece em locais mágicos como os botequins, onde as pessoas se despem do personagem que vestem na rotina diária e voltam a ser quem realmente são: gente.
- Pensei em pedir três cervejas pro Ricardo para a gente tomar em casa, mas resolvi pedir quatro. Aí ele botou as três na sacola e, na quarta, quando viu que estava cinza de tão gelada, peguntou se não dava para deixar para ele tomar mais tarde, enquanto terminava de limpar o bar. Ele disse que tava seco para tomar uma. Aí deixei.
Depois de rir da história, fiquei imaginando em que outra situação o dono de um boteco pede ao freguês para não levar a cerveja mais gelada do bar para que ele mesmo possa consumir. Aí fui entender a filosofia. Ali naquele momento, Ricardo não deixou de ganhar os R$ 2,50 de sempre pela Skol geladíssima. A lógica é outra: matou o desejo que lhe consumia a garganta e, de quebra, estreitou ainda mais uma amizade sincera que até numa noite de cão é incapaz de passar despercebida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008
COMO PASSAM AS NUVENS
O Centro Histórico absorve e preserva alguns personagens de fazer inveja a qualquer Machado de Assis. Uma dessas criaturas, que ainda não conheço como gostaria, o que deve acontecer em breve, é o seo Arnaldo.
Figura das mais simpáticas e excêntricas que já vi pelo meio dessas ruas do Centro, o cara é um passado de fidalguia. Quase todos os dias, desce a rua Letícia Cerqueira, onde moro há três meses, com um rádio negro daqueles gigantes com o volume lá em cima. A máquina é tão antiga que, pelo nível e a idade das canções que inundam a rua, parece inerte na primeira estação de rádio que seo Arnaldo sintonizou na vida.
Outro dia, quando corri para o portão assim que ouvi, mesmo de longe, a chegada de seo Arnaldo, um desses doidos de rua resolveu pegar carona no caminhada nostálgica do dono do rádio e disse para um vizinho que estava na janela, como se estivesse numa gafieira de antigamente:
- Bonito isso...
Definitivamente, ouvir serestões e boleros das décadas de 20, 30 e 40 em pleno Centro às quatro da tarde é para poucos. Como foi, para pouquíssimas pessoas, o diálogo que ouvi no dia em que conheci seo Arnaldo, ainda que ele não saiba até hoje da minha existência.
De saída do Beco da Lama, onde cobri as eleições da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjascências (SAMBA), em 2006, decidi aguardar o ônibus na avenida Ulisses Caldas. Poucas pessoas na parada. Entre elas, uma coroa simples que, até então, não havia chamado a atenção de ninguém. Até aparecer um senhor pra lá dos 70 anos com cara de personagem de desenho animado andando como se entre uma perna e outra coubessem dois passos, ao invés de um. Ao ver a coroa, o velho pára, passa-lhe uma cantada com o olhar e, então, acontece a seguinte conversa:
- Seo Arnaldo, como vai o senhor?
- Vou bem, dona Verônica. E a senhorita?
- Também. Passando por aqui?
- Passando, dona Verônica. Passando como passam as nuvens.
Pois é. Não preciso dizer mais nada.
Figura das mais simpáticas e excêntricas que já vi pelo meio dessas ruas do Centro, o cara é um passado de fidalguia. Quase todos os dias, desce a rua Letícia Cerqueira, onde moro há três meses, com um rádio negro daqueles gigantes com o volume lá em cima. A máquina é tão antiga que, pelo nível e a idade das canções que inundam a rua, parece inerte na primeira estação de rádio que seo Arnaldo sintonizou na vida.
Outro dia, quando corri para o portão assim que ouvi, mesmo de longe, a chegada de seo Arnaldo, um desses doidos de rua resolveu pegar carona no caminhada nostálgica do dono do rádio e disse para um vizinho que estava na janela, como se estivesse numa gafieira de antigamente:
- Bonito isso...
Definitivamente, ouvir serestões e boleros das décadas de 20, 30 e 40 em pleno Centro às quatro da tarde é para poucos. Como foi, para pouquíssimas pessoas, o diálogo que ouvi no dia em que conheci seo Arnaldo, ainda que ele não saiba até hoje da minha existência.
De saída do Beco da Lama, onde cobri as eleições da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjascências (SAMBA), em 2006, decidi aguardar o ônibus na avenida Ulisses Caldas. Poucas pessoas na parada. Entre elas, uma coroa simples que, até então, não havia chamado a atenção de ninguém. Até aparecer um senhor pra lá dos 70 anos com cara de personagem de desenho animado andando como se entre uma perna e outra coubessem dois passos, ao invés de um. Ao ver a coroa, o velho pára, passa-lhe uma cantada com o olhar e, então, acontece a seguinte conversa:
- Seo Arnaldo, como vai o senhor?
- Vou bem, dona Verônica. E a senhorita?
- Também. Passando por aqui?
- Passando, dona Verônica. Passando como passam as nuvens.
Pois é. Não preciso dizer mais nada.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
BAR DO MÁRIO, UMA INSTITUIÇÃO
O cruzamento da avenida Jaguarari com a rua Segundo Wanderley, no Barro Vermelho, tem mais de 25 anos de história. É ali, sob o toldo que desce sempre que o sol devora o asfalto, que Mário comanda o buteco que herdou do sogro. Um lugar que, segundo ele, vendia de tudo. Tanto vendia que decidiu manter a essência ao batizar a casa de Bar e Mercearia do Mário. Uma grande homenagem, registre-se. E lá se vai um quarto de século desde que assumiu os trabalhos.
O ritmo, para quem já passou da casa dos 60, faz inveja a qualquer empresariozinho metido a entendedor do assunto. O buteco do Mário, simplesmente, não fecha. De segunda a segunda, no passo arrastado do dono do estabelecimento. No domingo, o portão de ferro da casa desce mais cedo, às 17h. Mas no restante da semana Mário vai ao sabor da freguesia.
Conheci o Mário num dia desses de semana. A idéia era preparar o terreno para o almoço. Mas o ambiente e a hospitalidade do anfitrião mereciam algumas boas horas de conversa. Pequeno, mas não apertado, o buteco é acolhedor. A fotografia de corpo inteiro do craque Marinho Chagas em dia de Botafogo e o escudo do Santos na prateleira denunciam a intimidade que Mário tem com o passado. Foi boêmio dos tempos da Ribeira, confessa. As imagens dos fregueses mais fiéis por todos os lados e em todas as paredes deixam claro aos marinheiros de primeira viagem que o buteco é de família.
O clima é provinciano. A certa altura do meio-dia, um amigo da casa salta do carro mal-estacionado rente a calçada do bar. Entra rápido, cumprimenta duas figuras que bebem próximo ao balcão, pede uma dose de cachaça, vira num gole só, paga e vai embora. A visita não durou dois minutos. O bastante, no entanto, para perceber a intimidade da freguesia.
Numa mesa próxima à nossa, Eliezer, um militar reformado da Marinha, vai puxando um assunto atrás do outro como se já bebêssemos na casa desde sua fundação. De futebol à pena de morte, a conversa de botequim só respeitava a hora sagrada do banheiro. Nisso, já tinham passado por ali um pintor de parede que parou para tomar UMA e outros dois sujeitos que também chegavam da lida e, ao contrário da gente, conseguiram fazer do buteco do Mário um ponto de passagem após algumas doses de cachaça.
A tarde já havia pedido licença quando entra no estabelecimento um senhor já a caminho dos 80 anos. Passos curtos, Souza se enturmou logo na conversa. E não demorou muito para apresentar seu lado poeta. Recitou três poemas assinados por ele e foi embora depois de duas cervejas.
Sozinho atrás do balcão, Mário observa tudo. Cena por cena. De lá, fala de futebol, boemia, vaticina que o grande defeito do amigo Eliezer é gostar muito de mulher e conta a história de como veio parar ali, a relação com o sogro e tal. Na hora da despedida, dez cervejas, seis pasteizinhos e um queijo de coalho depois de quando tudo começou e quando imaginávamos que só as estórias já tinham feito a tarde valer a pena, Mário surge com uma barra de chocolate Suflair, daquelas grandes, e antes de qualquer reação olha para Ana Paula, minha parceira de todas as horas, e diz absoluto:
- Esse aqui não é um presente meu, mas da INSTITUIÇÃO bar e mercearia do Mário. Espero que vocês voltem logo.
Eis a grande definição do buteco dita, assim, como manda o figurino, pelo dono do estabelecimento. O bar do Mário é uma INSTITUIÇÃO, como devem ser e são os botequins de verdade.
E é óbvio que voltaremos.
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