domingo, 23 de novembro de 2008

DO TEMPO EM QUE AS PINIQUEIRAS AINDA ERAM BESTAS

A vida passa devagar para o velho Pedro engraxate. Aos 63 anos, ele sobrevive do passo apertado das centenas de pares de sapato que vem e vão pela antiga Praça da Cocada, na rua João Pessoa, em pleno Centro de Natal. Hoje, a praça carrega outro nome: John Kennedy. Mas nem disso ele reclama. Também não fala mal do governo e muito menos da falta dos fregueses. Saudade mesmo o velho Pedro engraxate tem do tempo em que trabalhava como zelador nos dois mais tradicionais cinemas daquela região: os cinemas Nordeste e Rio Grande. Perdeu a conta de quantos filmes de faroeste e de guerra assistiu entre uma espanada e outra nas poltronas. Diz apenas que aquele era um tempo diferente:

- Naquele tempo as piniqueiras ainda eram bestas. Hoje você nem reconhece mais. Antes, não. Quando vinha uma você sabia que era piniqueira. Aí chamava para ver um filme e, depois, ia sarrar por aí. Mudou tudo. Antigamente a noite nas ruas do Centro só andava gato e cachorro. Agora tem muito vagabundo.

Quando pergunto da história de uma galega misteriosa que vendia os bilhetes no cinema Nordeste, ele prova o quão cruel é o tempo:

- Era a Eugênia. Mas ela hoje está só o bagaço.

Depois que deixou o cinema, Pedro nunca mais assistiu a um filme. Nem de faroeste nem de guerra:

- Para quê? Hoje passa tudo na televisão... e eu também não tenho mais paciência, não. Bom era o John Wayne. Gostava também da ‘Noviça Rebelde’, ‘E o vento levou...’, hoje perdeu a graça. Trabalhei dez anos no Cinema Nordeste e nove anos no Rio Grande. Era muito bom. Chegava às 6 horas da manhã e saía às 7 da noite pronto para tomar umas pingas.

O velho Pedro engraxate nunca brincou em serviço. O ponto fixo onde trabalha é prova. Há 19 anos, conseguiu junto à prefeitura a concessão de um caixote de madeira instalado em frente à estátua do ex-presidente dos EUA, John Kennedy. A indicação veio de Antônio, o amigo sapateiro que tomava conta do caixote ao lado. A oportunidade, no entanto, teve um preço. Biriteiro de primeira, Antônio escapava de vez em quando da labuta e deixava Pedro tomando conta do negócio. Veio o primeiro freguês, o segundo, o terceiro e as escapadas do amigo, que a essa altura já tinha virado colega, ficaram cada vez mais freqüentes. Se precisava de uma grana, Pedro sabia a quem e onde recorrer:

- Às vezes ele estava sem dinheiro para tomar uns caroço de pinga e eu dava só para poder tomar conta do ponto e tirar um dinheiro. Tinha dia que ele mesmo pedia. Aí vagou o ponto do lado e ele perguntou se eu não queria trabalhar ali. Fui à prefeitura e, como não tinha ninguém mesmo, eles me deixaram tomando conta.

O caixote do Pedro engraxate fica entre outros dois caixotes, todos azuis. No da esquerda, trabalha um coroa botafoguense. O outro, de Antônio, está vazio desde o dia 12 de março, quando Pedro perdeu o amigo.

Pedro teve se virar entre as perdas e conquistas da vida incerta que assumiu desde que deixou a roça em Caiçara, interior da Paraíba, onde nasceu e trabalhava com o pai, para vir morar em Natal:

- Não queria passar minha vida inteira na roça. Peguei minhas coisas e vim para Natal trabalhar na feira do Alecrim, na barraca de uma tia. Logo depois um primo meu disse que tinha uma vaga de zelador no cinema Rio Grande e fui trabalhar lá.

O velho Pedro engraxate, na verdade, queria mais. E confessa que o que mais conquistou, no Centro que o acolheu, foram amigos. Taxistas, engraxates, sapateiros, comerciantes, ambulantes. É feliz. Ainda que o Centro de que tenha mais saudade seja o do tempo em que as piniqueiras ainda eram bestas. E esse tempo, admite, não volta mais.



A COMPANHIA DE UM PAULISTA

Encontrei Nelson Rodrigues num buteco de São Paulo. Próximo ao cruzamento da histórica rua Maria Antônia, onde aconteceu o famoso quebra-pau entre a turma do Makenzie e os canalhas do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) na ditadura, com a avenida da Consolação. Foi em 2003. Era minha primeira vez na terra da garoa. Enviado pelo editor de esportes da TV Universitária na época, Fernando Amaral, fui cobrir a participação da UFRN nos Jogos Universitários Brasileiros (JUB´s). Viagem de ônibus, 54 horas de chão.

Depois da primeira maratona (falo da viagem e não da modalidade), fomos acomodados em dois hotéis. O meu e de boa parte da delegação ficava exatamente no cruzamento da Maria Antônia com a Consolação. Ao lado, o buteco que me cativou logo pelo cartaz de Antarctica, que indicava o preço do ouro a R$ 1,75. Confesso: na verdade, era uma padaria. Eis a primeira constatação da minha impressão de Sampa: buteco de paulista é padaria. É curioso, mas não tem erro. Quase toda padaria de São Paulo tem um balcão enorme em U onde a freguesia se abanca naqueles tamburetes de ferro redondos presos ao chão. E tome pastelzinho, lombinho e, claro, cerveja. Pela manhã, até que o negócio funciona como padaria. Mas é só o cinza do céu de São Paulo ganhar o preto para virar um buteco.

As três noites que passei em São Paulo foram três noites ‘hospedado’ no buteco. Saía para o trabalho de manhã, com destino ao Ibirapuera, e voltava no fim da tarde para o hotel. Era banho, uma enganada no estômago e Antarctica. Tudo temperado com um friozinho que não matava ninguém (só no último dia os 8 graus de temperatura encerraram mais cedo os trabalhos).

Foi nesse buteco sem nome que encontrei Nelson Rodrigues. E já na primeira noite. Tímido, cheguei pianinho. Pedi uma Antarctica e fui brindando, comigo mesmo, a primeira cerveja na terra da garoa. Ao meu lado, um coroa. Pra lá dos 50 anos. Sisudo, cara de pouquíssimos amigos. Cigarro Hollywood numa das mãos e um copo na outra. O bigode grosso amarelado anunciava os anos idos de nicotina. Ficamos os dois dividindo a quina do balcão. Em pé, acomodados na calçada da rua Maria Antônia. Ameacei uma conversa, sem sucesso. Olhava meio de lado depois de um gole ou outro, sem retorno. Além de nós dois, havia um velho xavecando uma coroa na parte do balcão que dava para a porta da cozinha, além de outros figurantes. A cena de um autêntico botequim.

Eu já ia na quarta Antarctica e só falava com o garçom na hora de pedir mais uma. Minhas idéias começavam a embaralhar quando notei que tudo aquilo era o óbvio ululante:

- A pior solidão do mundo é a companhia de um paulista.

Nelson Rodrigues desceu na hora como um gole gelado e bem tomado. Não Havia outra explicação. Estava eu, ali, vivendo uma das frases mais geniais e certeiras do cronista tricolor. Pedi mais uma, ofereci a saideira a Nelson, e olhei, dessa vez, o paulista de frente. O ar, agora, era de vitória. A conta veio em seguida com a turma da casa já querendo descer o portão de ferro, outro símbolo que faz da padaria um buteco paulista de verdade. Estava realizado. Numa só noite, quatro momentos históricos: tomei minha primeira cerveja em São Paulo, descobri que buteco de paulista é padaria, conheci um paulista de verdade e constatei naquela noite que Nelson é um visionário: não há pior solidão no mundo que a companhia de um paulista.

O detalhe é que no dia seguinte, depois de um recomeço igualmente gelado, eu e o coroa, que bate ponto todos os dias no buteco, iniciamos um bom papo, como acontece em todos os butecos de verdade. Me ensinou até como chegar no Teatro Municipal. Em poucos minutos, o ambiente mudou, a imagem fria se dissolveu nas Antarcticas que foram descendo uma atrás da outra, outro coroa entrou na conversa e até um catador de latas amigo da turma, que gentilmente aceitou meu convite para uma cerveja e, lá pelas tantas disse que meu lugar era em São Paulo, apareceu naquele fim de noite.

Emocionado, me veio, de novo, Nelson na idéia. Aqueles momentos, pensei, provavam que a companhia de um paulista não é assim tão solitária. Então, tinha alguma coisa errada. A última coisa de que me lembro, antes de apagar na cama do quarto no hotel da esquina, foi Nelson olhando para minha cara:

- Meu jovem, toda unanimidade é burra!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

MARINHO CHAGAS: UM GENTLEMAN QUASE RUBRO-NEGRO



Corri o risco de apanhar do craque Marinho Chagas. Digo sem a menor cerimônia.
Hoje, sei que dificilmente faria, sóbrio, a pergunta que fiz a ele numa daquelas noites sem fim na mesa redonda do Bardallo´s de antigamente. Vai ver foi isso. Ou não. O fato é que antes da minha timidez abordar o ex-lateral esquerdo da Seleção Brasileira, do Santa Cruz e do Botafogo, na mesa ao lado da minha, Marinho já havia expulsado do local o publicitário Lula Augusto que, numa performance melancólica, insistia com uma conversa chata de que torcia para o Fluminense.

No meu caso, fui mais persistente. Puxei conversa, lembrei do chororô alvinegro na final da Taça Guanabara usando toda uma técnica para não irritá-lo, cerquei com uma mini-entrevista sobre o possível lançamento de uma biografia em que contaria grandes histórias vividas na carreira e, depois de três ou quatro brindes e a confissão de que me sentia orgulhoso em tomar uma cerveja com Marinho Chagas, veio o seguinte diálogo:

- Você chegou a receber proposta do Flamengo?

Senti, pelo gole de cerveja bem tomado, que Marinho voltou no tempo:

- Em 1981, quando eu estava no Cosmos com o Pelé, liguei para o Márcio Braga dizendo que queria voltar para o Brasil e, de preferência, para o Flamengo, que tinha um time maravilhoso. Aí o Márcio disse que não tinha interesse em mim e acabei assinando com o São Paulo.

A deixa do Marinho foi como um pênalty. Era só eu e o goleiro. Não tinha como errar. E bati:

- Mas, falando sério hoje, você acha que tinha lugar naquele time, no lugar do Júnior?

Sabe quando você faz uma pergunta já preparando um lado do rosto para rebordosa? Pois bem. Sentindo que a bola ia morrer no canto, lá no fundo da rede, Marinho levanta a cabeça e com elegância devolve a pelota:

- Eu fui o melhor lateral esquerdo do Brasil na Copa do Mundo de 74. Mas quando voltei ao Brasil, falei para o Júnior: você vai ser meu sucessor. E foi.

Poucas pessoas, principalmente no futebol, conseguem reconhecer o fim de uma era ou de uma fase maravilhosa, como a que Marinho Chagas viveu nos tempos idos da década de 70. A resposta dele é como uma aula dessas que a gente só ouve nos butecos da vida. Minha reação foi simples: ergui o copo pela quinta vez naquela noite e ofereci um brinde ao gentleman quase rubro-negro que, por pouco, me viu chorar.

BUTECO DE FÉ

Tenho lutado incansavelmente ao lado da Ana, minha parceira de todas as horas, para encontrar O Buteco. Daqueles que a gente tem a honra de chamar de nosso. Que seja, de fato, a segunda Casa da nossa ainda pequena, mas mui amada família.

Um lugar aonde se chega à vontade, se abanca, se bebe, se come, se ri, se chora, se sonha e, no fim de mais um dia de muitos trabalhos, se despede com a certeza de que, no dia seguinte, tudo será ainda melhor. Sem compromisso com hora, sem fazer cerimônia.

E o que mais tem me deixado orgulhoso desde que iniciamos esse périplo pelos botequins natalenses é a constatação de que, hoje, fazemos, eu e Ana, parte de muitas famílias. Temos, enfim, a honra de chamar de nosso não apenas um, mas pelo menos quatro butecos desta cidade.

O bar de Nazaré e o bar do Ricardo, no Centro, a cigarreira do seu Pedrinho, em Morro Branco, e o PotiBar, em Ponta Negra, merecerão, mais para frente, crônicas distintas.

Por enquanto, basta saber que nesses quatro butecos, a qualquer hora do dia ou da noite, um sorriso sincero nos acolhe. Como acontece nas grandes famílias. Um sentimento verdadeiro que fez surgir, já nos primeiros encontros, grandes amizades.

É que não há nada que dê mais orgulho nessa vida de boêmio que ser chamado pelo nome pelo dono de um Buteco. Um lugar que não lhe cobra o sobrenome. E que esteja você como estiver serás sempre um filho da Casa.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

UMA HISTÓRIA DO BAR DO NASI

O tradicionalíssimo bar do Nasi, fincado na histórica esquina da rua Dr. José Ivo com a Coronel Cascudo, no coração do Beco da Lama, segue hoje por linhas tortas nas mãos de um comerciante que a comunidade do Centro chama de Chico. Sujeito bronco, herdou o buteco do filho do velho Nasi, Adoniran. Embora o nome de sambista e os anos vividos à sombra do buteco mais freqüentado do Beco sugiram a velha e boa malandragem da boemia, o herdeiro, imerso em dívidas acumuladas nas mãos de um agiota da Cidade Alta, passou a jóia como quem entrega o ouro ao bandido.

Reza a lenda contada e ouvida em toda esquina e adjacência do Beco que o tal agiota, antes de morrer assassinado um ano desses, repassou o ponto ao Chico, também por conta de umas dívidas nesse negócio de agiotagem.

Isso tudo aconteceu de 2001 para cá, ano em que o velho Nasi foi ensinar, em outra dimensão, a famosa combinação de cachaça, mel e limão, imortalizada por ele muito antes de partir. Depois de tanto ouvir falar na meladinha preparada na hora e em cima de cada pedido, criei comigo a tese de que seu Nasi só foi “convocado” mesmo quando o homem lá de cima admitiu, internamente, que a receita da meladinha já tinha ganho mais fama que aquela história de transformar água em vinho.

Mas seguindo em frente, quando passei a freqüentar o Beco, em 2006, entrei no buteco e, da fila do banheiro, onde havia um simpático cartaz feito à mão numa folha de ofício com os singelos dizeres: “Favor não cagar”, avistei uma plaqueta negra com a escrita em bronze já encardido pelas décadas de histórias ali acumuladas. E põe história nisso. Quase por trás de um freezer da Brahma, ainda se conseguia ler o recado:

- Aqui, dia 21 de abril de 1969, Pixinguinha recebeu o abraço carinhoso desta Natal Boêmia.

Empolgado com a história e louco por mais detalhes da presença do mestre Pixinguinha no bar do Nasi, direcionei a metralhadora giratória de perguntas para o dono do estabelecimento. Com um pano de prato no ombro e os olhos voltados para o churrasquinho de gato prostrado no fogo, Chico nem olhou para minha cara:

- Foi um cara que teve aí. Mas não conheço nada dessa história não.

Decepcionado, só algum tempo depois descobri a importância daquele pedaço do Beco da Lama para a história do Centro Histórico de Natal. Alguns dos vários causos que tiveram o buteco e o velho Nasi como testemunhas. Inclusive o que de fato aconteceu naquela data que está indicada na placa em homenagem ao mestre Pixinguinha. Mas isso é mais pra frente. Até porque a história não morre. Com a história não tem essa de saideira. Nem quando o ouro, às vezes, cai na mão de quem não honra a tradição dos botequins.